Petrobrás triplica investimento a toque de caixa

Petrobrás triplica investimento a toque de caixa

Estatal anunciou inclusão de R$ 462 bilhões no PAC 2; valor superior ao informado há dez dias

Nicola Pamplona, Kelly Lima, O Estado de S.Paulo

31 de março de 2010 | 00h00

RIO

A inclusão de R$ 462 bilhões em investimentos da Petrobrás no PAC 2 foi aprovada pelo conselho de administração da companhia no mesmo dia da divulgação do programa governamental, em reunião que não constava da agenda dos ministros integrantes. O novo anúncio quase triplicou a projeção de investimentos divulgada dez dias antes pela companhia e foi recebido com desconfiança pelo mercado, pela falta de detalhes.

A reunião foi realizada anteontem, em Brasília. A estatal não informou, porém, se o encontro foi antes ou depois da cerimônia realizada na manhã daquele dia, na qual a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, revelou os valores. No início da noite, a companhia divulgou fato relevante comunicando ao mercado a aprovação do novo plano de investimentos, uma obrigatoriedade entre as empresas com ações negociadas em bolsa de valores.

O valor adicional sob a responsabilidade da Petrobrás representa quase 30% do investimento total do PAC, e turbinou o programa, orçado em R$ 1,59 trilhão. Segundo a Petrobrás, os recursos serão aplicados após 2014. Mas a empresa não identifica o período exato e nem quais são os projetos. Os recursos são bem superiores, porém, à projeção da empresa para o pré-sal feita no ano passado, que previa US$ 111 bilhões (quase R$ 200 bilhões) até o ano de 2020.

Ao contrário do que ocorre normalmente, a reunião do conselho, ainda presidido por Dilma, não estava listada nas agendas prévias dos ministros que fazem parte do conselho (além dela, Guido Mantega, da Fazenda). O conselho da Petrobrás havia se reunido pela última vez no dia 19, quando aprovou, no plano de investimentos, a inclusão de R$ 264 bilhões no PAC para o período entre 2010 e 2014.

O estatuto da empresa prevê reuniões do conselho a cada 30 dias, com possibilidade de convocação extraordinária por seu presidente ou da maioria dos conselheiros. Questionada pelo Estado, a companhia não informou se todos os conselheiros participaram da reunião de ontem. O estatuto permite a participação de conselheiros por telefone ou videoconferência.

Além de Dilma e Mantega, fazem parte do conselho como representantes do governo o presidente da companhia, José Sérgio Gabrielli, o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, o ex-ministro de Minas e Energia Silas Rondeau, o general Francisco Roberto de Albuquerque e o economista Sérgio Quintella. O presidente do Real/Santander, Fábio Barbosa, e o empresário Jorge Gerdau Johanpetter representam os acionistas minoritários.

A participação da Petrobrás no PAC inclui ainda a cifra de R$ 250 bilhões, que representam os investimentos entre 2010 e 2014, uma redução de R$ 14 bilhões com relação ao anunciado há duas semanas.

"Quando você faz o pente-fino desses negócios, você verifica que alguns desses projetos têm sócios, outros podem acontecer fora desse período. É simplesmente um ajuste", explicou ontem Gabrielli, após evento em São Paulo. "Do total de R$ 1,59 trilhão que vai ser investido no PAC 2, mais de R$ 50% vêm da Petrobrás."

"Se não existisse a Petrobrás, o governo não investiria este valor? Ou, se o governo não existisse, a Petrobrás não estaria investindo?", disse o diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura, Adriano Pires, para quem a divulgação do PAC foi eleitoreira.

No mercado financeiro, o anúncio dos investimentos não teve impacto, por conta das dúvidas ainda sem resposta. "Se o plano não fala até quando serão aplicados esses recursos, fica difícil fazer qualquer análise. Pode ser em um prazo de 50 anos...", resumiu o analista Luiz Otávio Broad, da corretora Ágora. / COLABOROU ANDRÉ MAGNABOSCO

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