PF acha em cemitério ossadas dos anos 80 e 90

Segundo procuradora que integra força-tarefa encarregada de procurar corpos de presos políticos, restos podem fazer parte de vala comum

Fausto Macedo, O Estado de S.Paulo

01 de dezembro de 2010 | 00h00

Restos mortais foram encontrados ontem em ossário oculto sob um canteiro do cemitério Vila Formosa, na zona leste de São Paulo. Até a profundidade que os peritos da Polícia Federal conseguiram chegar havia 16 sacos azuis de plástico contendo ossadas que foram retiradas e levadas para exames de identificação no Instituto Médico Legal (IML).

"Alguns sacos têm identificação do serviço funerário e datam das décadas de 80 e 90", disse a procuradora da República Eugênia Fávero, que integra força-tarefa do Ministério Público Federal para buscas de corpos de militantes políticos que teriam sido mortos pela repressão militar e atirados em vala clandestina no maior cemitério da América Latina. "Ainda não é o que estamos procurando, mas são ossos que não poderiam estar sob um aterro."

Para a procuradora, o que foi localizado "pode representar um grande descaso com os despojos de indigentes cujas famílias não tinham dinheiro para colocar seus mortos em ossário comum, porém com identificação e registro em livro".

"Temos informações de que em uma vala comum podem ter sido depositados restos mortais desde 75, mas esse tipo de procedimento com ossadas de indigentes pode dificultar o nosso levantamento", declarou a procuradora. "Os ossos hoje (ontem) encontrados podem não ter ligação com atos da repressão."

Procura. A pesquisa no Vila Formosa teve início dia 8 de novembro, com mobilização de representantes da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos - ligada à Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República -, peritos do Instituto Nacional de Criminalística da PF e legistas do IML.

Procuradores federais suspeitam que pelo menos dez desaparecidos políticos teriam sido sepultados ali no período mais implacável dos anos de chumbo. Em algum lugar do cemitério pode estar o corpo de Virgílio Gomes da Silva, o Jonas, líder sindical dos químicos, que liderou o sequestro do embaixador americano Charles Elbrick, em 1969.

Eugênia e o procurador regional Marlon Alberto Weichert são autores de uma ação civil pública que pede responsabilização de quem autorizou esconder cadáveres de opositores da ditadura. Os peritos vão vasculhar Vila Formosa até sexta-feira.

As ossadas ontem recolhidas serão submetidas a análise antropológica - fotos, dados médicos e dentários de desaparecidos serão cruzados com as características das ossadas. Essa primeira fase da investigação será realizada em conjunto pelo IML e os peritos da PF. Depois, será coletado o material genético, para confrontação com dados dos familiares das vítimas que compõem banco de DNA.

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