PF fecha rota da cocaína via Cumbica

Quadrilhas levavam malas com drogas para África e Europa; 58 pessoas, incluindo servidores públicos, foram presas

Vitor Hugo Brandalise, O Estadao de S.Paulo

11 de março de 2009 | 00h00

A Polícia Federal (PF) encerrou ontem uma operação que desbaratou três quadrilhas de tráfico internacional de drogas que atuavam no Aeroporto Internacional de Cumbica, em Guarulhos, há pelo menos dois anos. As quadrilhas pagavam propina a servidores da Receita Federal e da Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária (Infraero), além de cooptar funcionários de companhias aéreas e vigilantes responsáveis pela segurança do aeroporto para que facilitassem o envio de malas cheias de cocaína a países da África e da Europa.Só no primeiro semestre de 2007, antes de começarem as investigações, a PF estima que 1,3 tonelada de cocaína tenha chegado a receptores de Inglaterra, Holanda, Portugal e África do Sul. Por serviço, a quadrilha pagava em torno de R$ 2,5 mil ao funcionário cooptado, segundo a PF. Em média, 50 quilos de cocaína eram levados em cada mala.Na operação - iniciada em julho de 2007, após pedido de cooperação do governo da África do Sul -, 58 pessoas foram presas, incluindo uma auditora da Receita Federal responsável pela fiscalização do setor de cargas, um funcionário da Infraero que trabalha na área em que ficam as câmeras que vigiam a pista, quatro policiais civis e uma policial militar. "Três dos policiais atuavam como traficantes e o outro foi preso por concussão, por saber o que acontecia e não ter feito nada", disse o chefe da delegacia da PF no aeroporto, Mário Menin Junior. A policial militar, segundo a PF, atuava como "facilitadora" - provavelmente como aliciadora de "mulas", que ajudavam no transporte das malas.Também foram presos 37 funcionários de companhias aéreas. Todos os integrantes da quadrilha atuavam em São Paulo, Guarulhos, Campo Grande (MS) e Ponta Porã (MS) - nas duas últimas cidades, como aliciadores de mulas. Os mandantes da quadrilha eram traficantes nigerianos que moravam em São Paulo. Para que "não houvesse influência no processo judicial", a PF não informou a identidade dos presos - em Campo Grande e Ponta Porã, há ainda três foragidos. Desde o início da operação, em 22 remessas encontradas, foram apreendidos 547 quilos de cocaína - na maior remessa, eram 122 quilos.SEM FISCALIZAÇÃOA investigação da PF mostra um esquema com funcionários cooptados em praticamente toda a área de pista - de vigilantes da guarita a operadores de veículos-escada. O transporte da droga passava, necessariamente, pelos furgões brancos da empresa terceirizada, contratada pela Infraero, que faz a segurança de pista. Vídeos da PF mostram os furgões chegando a Cumbica seguidos por carros de passeio até uma das entradas do aeroporto, onde os carros estacionavam e a droga era colocada no furgão.Sem nenhuma revista, o carro então passava direto pela guarita, até chegar ao terminal de cargas. Ali, funcionários levavam a droga - em malas, como se fossem bagagem de passageiros, ou caixas, tal como produtos industrializados - aos veículos de carga, que transportavam os contêineres ao bagageiro do avião sem passar por nenhum tipo de fiscalização. Caso os veículos de carga não estivessem próximos, as malas eram colocadas em veículos-escada - nesse caso, tudo ocorria bem próximo do avião, de forma completamente exposta a câmeras de segurança.Outra estratégia da quadrilha era retirar etiquetas das malas de passageiros comuns e colocá-las em malas com cocaína. "As bagagens dos passageiros ficavam sem etiqueta, enquanto os traficantes sabiam até os nomes que estariam nas malas quando a droga chegasse ao destino", disse o procurador da República Vicente Mandetta, que participou das investigações. "Chama a atenção a facilidade com que os traficantes atuavam, com droga transportada entre os veículos calmamente, como se não houvesse problema. A investigação foi realizada em Cumbica, mas é completamente plausível que se repita em outros terminais."A Infraero determinou a instauração de sindicância para "avaliar a participação dos empregados em atividades que comprometam os procedimentos normativos da empresa". A Corregedoria da Polícia Civil solicitou à PF informações para averiguar o envolvimento dos policiais.NÚMEROS32 prisõesforam efetuadas ontem; entre detidos há 1 auditora da Receita, 1 funcionário da Infraero e 2 policiais3 foragidoscontinuam a ser procurados pela PF, em Mato Grosso do Sul, sob a acusação de aliciar ?mulas?35 mandadosde busca e apreensão foram expedidos ontem em SP e MS50 kg de cocaínaeram enviados, em média, à Europa e África a cada ação criminosa

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