PF investiga agentes por ''núcleo de extorsão''

Prefeito de Indaiatuba diz ter sido procurado por emissário do grupo, que queria R$ 2 milhões para poupá-lo de inquérito sobre fraude em licitações

Fausto Macedo e Bruno Tavares, O Estado de S.Paulo

16 de dezembro de 2010 | 00h00

A Polícia Federal investiga um escritório de advocacia na Rua dos Pinheiros, em São Paulo, onde agentes da corporação teriam montado um núcleo para extorsão de prefeitos sob investigação por fraudes em licitações com recursos do Tesouro. Reinaldo Nogueira (PDT), prefeito de Indaiatuba, revelou ontem que foi procurado por um emissário do grupo e que exigiram R$ 2 milhões para poupá-lo.

Nogueira declarou ao Ministério Público que recebeu em setembro um homem que se identificou como Silvio. Ele é informante policial. A audiência, no gabinete do pedetista, ocorreu 40 dias antes de a Polícia Civil e a promotoria de Campinas deflagrarem a operação que levou à prisão oito empresários e lobistas ligados ao governador Carlos Gaguim (PMDB), do Tocantins. A organização teria corrompido prefeitos e secretários de 11 municípios paulistas.

Silvio pressionou o prefeito. Ele disse que contratos de sua administração estavam sob suspeita e que a PF o investigava, mas acenou com a possibilidade de livra-lo de enquadramento e prisão. Recomendou a Nogueira que fosse ao escritório de Pinheiros - o prefeito chegou a pedir orientação a um deputado de seu partido, que acionou um coronel da reserva da Polícia Militar alvo da PF em operação sobre desvios de verbas do BNDES.

Registros do controle de acesso indicam que Nogueira chegou ao escritório dos federais às 9h02 e saiu às 12h37 no dia 4 de agosto. Um agente da PF chegou antes ao prédio, às 8h30, e retirou-se às 14h24. Esse policial foi reconhecido ontem por Nogueira em foto que lhe foi exibida. O prefeito disse que os federais o aconselharam a forjar contrato de serviços com o escritório no valor exigido. Ele garantiu que não pagou nada.

A promotoria já suspeitava de vazamento de dados reservados do inquérito sobre a organização que mantinha ramificações no Tocantins. No dia 23 de setembro foi roubado um computador da sede do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), braço do Ministério Público que investiga corrupção - na memória do computador estavam armazenadas todas as interceptações da quadrilha de fraudadores.

Em 5 de dezembro, o agente federal Richard Fragnani de Moraes, do setor de inteligência da PF em Campinas, foi encontrado morto com um tiro na cabeça em um matagal da cidade - a perícia constatou suicídio. Ele era o principal suspeito de ter roubado o computador. Dois dias antes, foi chamado para depor. Ele admitiu ter repassado dados sigilosos da missão a um dos federais que dão expediente no escritório. Tenso, Richard pediu alguns dias para decidir se contava o que sabia. Apareceu morto. No mesmo dia, o superintendente da PF em São Paulo, Leandro Daiello Coimbra, foi a Campinas e tomou as primeiras medidas.

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