PF prende 34 e acusa empresas de ônibus de armar cilada contra rivais

Segundo a polícia, companhias tradicionais chegavam a plantar droga em carros para prejudicar concorrentes

Bruno Tavares e Rodrigo Pereira, O Estadao de S.Paulo

14 de novembro de 2007 | 00h00

A Polícia Federal (PF) desarticulou ontem quadrilhas lideradas por dirigentes e empresários do setor de transporte rodoviário de passageiros que atuavam nos Estados de São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Os dirigentes das empresas de ônibus contavam com o apoio de pelo menos 14 agentes da Polícia Rodoviária Federal (PRF) e 7 fiscais das agências reguladoras de São Paulo e Santa Catarina. Todos são acusados de patrocinar operações e blitze contra as concorrentes e até de forjar flagrantes, colocando drogas e armas nos bagageiros dos ônibus das rivais para que fossem incriminadas por tráfico.Dos 35 mandados de prisão expedidos pelo juiz Cláudio Kitner, da 1ª Vara da Justiça Federal em Ourinhos, no interior de São Paulo, 34 haviam sido cumpridos até o início da noite de ontem. Entre os detidos estão 3 empresários do setor, 14 intermediários, 10 policiais rodoviários federais da delegacia de Marília, 4 fiscais da Agência Reguladora de Serviços Públicos Delegados de Transporte do Estado de São Paulo (Artesp) e 3 do Departamento de Transportes e Terminais de Santa Catarina (Deter).As Viações Nossa Senhora da Penha - mais conhecida como Penha -, Andorinha e Garcia são acusadas de utilizar as mais diversas artimanhas para prejudicar as concorrentes. A Penha, aliás, pertencia ao Grupo Itapemirim, que também controla a Viação Itapemirim, uma das empresas lesadas pela quadrilha. Em junho, ela foi negociada com o Grupo Áurea, pertencente ao dono da Gol. O golpe mais comum era arquitetar operações ou patrocinar fiscalizações mais rigorosas contra as empresas rivais na região oeste do Estado e em Santa Catarina. Em troca, as companhias teriam bancado festas e churrascos e fornecido dinheiro aos policiais e fiscais envolvidos. Há indícios de que integrantes de uma das quadrilhas também fizeram doações para a campanha de um candidato a vereador da região.As investigações que deram origem à Operação Veredas da PF começaram há dois anos, para apurar suspeitas de peculato (desvio de dinheiro público) praticado por policiais rodoviários federais de Ourinhos. "As primeiras denúncias eram de desvios de apreensões de contrabandos que envolviam pessoas do serviço público, no caso, policiais rodoviários federais", disse o superintendente da PF em São Paulo, Jaber Makul Hanna Saadi. Durante as investigações, a PF, o Ministério Público Federal (MPF) e a Corregedoria da PRF se depararam com golpes muito maiores. "Criaram um esquema para favorecer empresas que, mancomunadas com agentes públicos, realizaram operações como colocar drogas e armas nos ônibus das concorrentes que pretendiam prejudicar", explicou Saadi. Ainda segundo o superintendente da PF, as empresas usavam pessoas especializadas em colocar a bagagem, mas que não embarcavam. Escutas telefônicas feitas com autorização judicial mostram que ao menos quatro empresas foram vítimas dos golpes. Por ora, a PF não tem evidências de que as três empresas acusadas atuassem em conjunto.SUSPEITASJorge Eliberto Lopes, um dos fiscais presos ontem pela Operação Veredas, já estava sendo investigado em um procedimento administrativo aberto pelo próprio Deter, onde trabalhava. Segundo o diretor de Transportes do Deter, Luiz Carlos Tamanini, a investigação estava em fase inicial. O alvo, porém, eram "ações do fiscal envolvendo a defesa de determinadas companhias".Tamanini explicou ainda que o Deter firmou acordo com a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) para fiscalizar as linhas interestaduais que passam por Santa Catarina. O diretor disse que acionaria a Polícia Civil para investigar seus funcionários. "Não dá para determinar nada antes, mas serão tomadas as medidas cabíveis e eles perderão o emprego se ficarem comprovadas as irregularidades", concluiu. Na noite de ontem, o diretor-geral da Artesp, Carlos Eduardo Dória, baixou portaria com o desligamento temporário dos fiscais Carlos Roberto Caetano, Douglas Rocha Medeiros, José dos Santos e Rubens Gonçalves. Eles ficarão afastados até a conclusão do inquérito policial. Dória também instaurou procedimento disciplinar contra os funcionários, que será acompanhado por um procurador do Estado.

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