PF propõe nova investigação sobre o mensalão no BB

Dados complementares sobre repasses feitos pelo PT e origem dos recursos podem levar à abertura de outros inquéritos na Justiça

Felipe Recondo / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

09 Abril 2011 | 00h00

Uma série de investigações iniciadas no rastro do esquema do mensalão do PT, ocorrido em 2005, pode originar novos inquéritos na Justiça. O relatório concluído em fevereiro pela Polícia Federal e encaminhado ao Supremo Tribunal Federal (STF) propõe novas investigações sobre as contas do Banco do Brasil, depósitos e repasses feitos pelo PT, indícios contra ex e atuais parlamentares e suspeitas sobre a Secretaria de Fazenda do Distrito Federal no governo Joaquim Roriz, além de repasses feitos para meios de comunicação em diversos Estados.

Apesar de serem resultado da investigação iniciada após a descoberta do mensalão, o relatório da PF e as novas investigações propostas ao Ministério Público não têm relação direta com a ação principal que tramita no STF, envolvendo 38 acusados no esquema de corrupção montado no governo Luiz Inácio Lula da Silva. Os novos indícios encontrados pela PF fazem parte do inquérito aberto no Supremo para apurar a origem dos recursos do mensalão. Não são, portanto, o relatório final do mensalão.

O delegado da PF encarregado da investigação, Luís Flávio Zampronha, adiantou no relatório que um inquérito policial já foi aberto, por determinação do Ministério Público, para "apurar a responsabilidade dos servidores do Banco do Brasil nas irregularidades envolvendo seus contratos de publicidade e propaganda". Essa investigação torna-se mais relevante porque a PF concluiu que parte dos recursos do mensalão, esquema supostamente montado pelo empresário Marcos Valério e pelo ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares, era de dinheiro público vindo do Fundo Visanet e do orçamento próprio do Banco do Brasil.

Influência. "Vislumbra-se mais uma vez, nestes casos, a confusão existente entre o público e o privado, nos quais servidores de uma empresa estatal manipulam vultosas quantias, não segundo uma lógica impessoal e universal, mas, ao contrário, tendo em vista os interesses particulares de grupos detentores de poder político ou que exerçam algum tipo de influência", afirmou Zampronha no relatório.

Outra investigação que pode ser desencadeada envolve as contas do PT. A movimentação de recursos do partido mostra a existência de depósitos sem origem certa de R$ 800 mil e transferências de altos valores sem destino especificado. A PF questionou ao Ministério Público se deve buscar informações que permitam descobrir quem são os responsáveis pelos depósitos e os beneficiários dos recursos.

O relatório da PF suspeita ainda da existência de uma nova lista de beneficiados pela distribuição de dinheiro, incluindo políticos, servidores públicos, advogados e empresários. Nela estariam, por exemplo, Rodrigo Barroso, coordenador financeiro da campanha do hoje ministro Fernando Pimentel (Desenvolvimento) à Prefeitura de Belo Horizonte em 2004. A PF tentou saber de Barroso a origem e o destino de R$ 247 mil recebidos de uma das empresas de Valério. Barroso, porém, ficou calado no depoimento.

Também constam da lista feita pela PF o ex-deputado distrital Geraldo Naves, preso por suposto envolvimento no "mensalão do DEM" em Brasília; o jornalista Luiz Lanzetta, que integrou a campanha de Dilma Rousseff à Presidência; Freud Godoy, segurança de Lula em 2002, e Manoel Neto, marido da deputada Jaqueline Roriz (PMN-DF).

Entre as empresas que receberam recursos das empresas de Marcos Valério estaria o jornal Tribuna do Brasil, que teve como donos o ex-senador Mário Calixto e, depois, Alcyr Collaço - este flagrado guardando na cueca dinheiro do mensalão do DEM. O jornal recebeu, em menos de dois anos, R$ 4,9 milhões do governo Joaquim Roriz.

PARA LEMBRAR

Um vídeo mostrando um funcionário dos Correios recebendo propina, em maio de 2005, revelou o que acabou sendo o maior escândalo político da história recente do País, o mensalão. Mostrado pela revista Veja, ele foi confirmado dias depois pelo então deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ).

Consistia num amplo esquema de pagamentos feitos pelo governo a parlamentares, via PT, em troca de votos para seus projetos. Para executá-lo, o publicitário mineiro Marcos Valério comandava uma complexa operação com dinheiro saído de várias fontes, como o Banco do Brasil, o Banco Rural e outros canais, antes de chegar aos políticos. Jefferson revelou que se beneficiava e que o esquema envolvia dezenas de políticos . O escândalo levou à cassação do ex-ministro José Dirceu e do próprio Jefferson na Câmara. O processo, com 38 indiciados, aguarda sentença no STF.

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