Pijama de Vargas volta a ser exposto

Peça que o ex-presidente usava quando se matou foi restaurada; buraco de bala e mancha de sangue foram mantidos

Felipe Werneck, O Estadao de S.Paulo

20 Agosto 2009 | 00h00

O paletó de seda do pijama que Getúlio Vargas (1882-1954) usava quando deu um tiro no coração voltará a ser exibido no Museu da República a partir de segunda-feira, 55 anos após o suicídio do presidente. A peça havia sido retirada em 9 de dezembro do quarto presidencial, no terceiro andar do antigo Palácio do Catete, para sua primeira restauração. O buraco de bala e a marca de pólvora continuam lá, uma polegada abaixo do monograma GV bordado no bolso esquerdo do pijama da Raul Camiseiros Rio. Um pouco acima, há uma pequena mancha de sangue, já meio amarelada. Como a roupa ficará exposta dentro de uma vitrine, sobre um suporte, agora será possível ver também a parte de trás, onde há outra mancha de sangue, bem maior - antes, o paletó ficava estendido na horizontal, apenas com a parte da frente para cima. A responsável pela restauração e higienização foi a museóloga Helena Lúcia Antunes Cardoso. Especializada em têxtil e papel, ela venceu uma licitação aberta pelo museu. O trabalho durou três meses e custou R$ 11.592 (foram gastos mais R$ 2.280 na vitrine). Helena recomenda que o pijama volte para a reserva técnica após 3 meses de exibição, no máximo, e lá fique guardado por no mínimo 9 meses, sob condições mais propícias. PROCISSÃO O Museu da República não abre para o público às segundas, mas fará uma exceção no dia 24. "Esperamos a data. O pijama voltará exatamente 55 anos após o suicídio de Getúlio", conta a museóloga Magaly Cabral, diretora do museu. Atualmente, há uma foto no lugar do paletó - que voltará para o quarto quando a peça seguir para a reserva. "O ideal seria ter uma réplica para o rodízio, mas em vez de gastar com isso prefiro restaurar outra peça. É preferível cuidar do que está se deteriorando, como era o caso do pijama. Temos muitas necessidades, e há prioridades", afirma Magaly. A historiadora Maria Helena Versiani conta que no dia 24 de agosto costuma ocorrer "uma procissão" para o quarto de Getúlio, onde também está exibido o Colt calibre 32 usado por ele. "A importância no imaginário popular é impressionante. É incrível como vem gente", diz ela, lembrando que o ex-presidente, "personagem controverso", suscita "paixão em uns" e "ódio em outros", por conta do período ditatorial. Para ela, o pijama "não é uma peça de pano solta na história". "O objetivo do museu é reconstituir uma época, resgatar e estimular a memória a partir de representações. Não se trata de um objeto a ser exaltado, mas que ajuda a entender o País", avalia a historiadora. "Permite articular ideias, provocar a reflexão. Um museu existe não só para conservar e preservar, mas para comunicar. A alma é o público." Maria Helena conta já ter conversado com muitos visitantes que "acreditam que ele (Getúlio) não morreu". "Dizendo que ele foi assassinado tem metade do mundo." Magaly destaca a reviravolta política provocada pela morte de Vargas. "Tudo era contra ele, e passou a ser a favor." O Museu da República foi criado após a transferência da capital para Brasília. Recebeu cerca de 50 mil visitantes no ano passado, e 33 mil até julho deste ano. O ingresso custa R$ 6 - às quartas e aos domingos a entrada é gratuita.

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