Pilotos temem tempestades e evitam voar nessas condições

Dos 14.220 incidentes já registrados desde 1943, apenas 73 foram atribuídos a turbulências ou ao vento

Reuters,

02 de junho de 2009 | 13h15

Pilotos de avião são conhecidos por aparentarem calma e confiança, mas quando o assunto é voar em tempestades, eles tendem a ter uma reação diferente: evitar é a ordem. Especialistas em aviação debatem o que pode ter causado na segunda-feira a queda do voo 447 da Air France no oceano Atlântico. A aeronave, um Airbus A330, levava 228 pessoas.

 

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Dois pilotos veteranos entrevistados pela Reuters disseram que tentariam desviar ao máximo de uma tempestade, ainda que os aparelhos modernos sejam desenhados para lidar com as tormentas. "Meu recorde pessoal foi um desvio de quase 300 milhas náuticas só para circunavegar uma grande área de chuvas ao longo do oceano Atlântico, perto da Flórida", disse Evert van Zwol, presidente a Associação Holandesa de Pilotos.

 

A Força Aérea Brasileira informou nesta terça-feira que seus aviões detectaram destroços a aproximadamente 650 quilômetros a nordeste da ilha de Fernando de Noronha, mas disse que ainda não é possível afirmar se seriam partes da aeronave desaparecida.

O A330, que voava do Rio de Janeiro a Paris, passou por forte turbulência cerca de quatro horas após a decolagem, e aproximadamente 15 minutos depois disso enviou uma mensagem automática de problemas elétricos. Desapareceu pouco depois de ter tido de voar por uma faixa de turbulência e tempestades frequentes no Equador.

"Você não passa por esse tipo de clima de forma leve. É desagradável para os passageiros e pode ser alarmante para nós", disse Tim Armstrong, ex-comandante de um 747 da Singapore Airlines. "Voar sobre uma dessas tempestades é muito alarmante, especialmente naquela parte onde as nuvens estão muito altas e ativas. Há muita névoa e pressão para cima, então você tenta fazer o máximo para não ir lá."

Van Zwol, que pilotou jatos 747-300 e 777 da Boeing por 20 anos para a Royal Dutch KLM, linha aérea irmã da Air France, falou que os comandantes são treinados para fazer o que for preciso para evitar tempestades com raios. "Eu acho que a maioria dos pilotos, quando perguntada, vai confirmar que é muito improvável voar sobre uma tempestade com raios", disse Van Zwol. "Se você passar por uma turbulência severa, e todos nós já sentimos isso uma vez pelo menos, é muito desconfortável. É difícil de ler os instrumentos", acrescentou.

Ameaça invisível

A turbulência é invisível, e por isso os pilotos precisam confiar em algumas técnicas de detetive com o que podem ver no radar. "Se há uma linha (de nuvens de tormenta) você geralmente vai onde haja um buraco nessa linha. Mas o radar só detecta vapor de água. Ele não pode ver a turbulência, então você precisa inclinar o radar para detectar o vapor nas nuvens", disse Armstrong. "À noite, isso é muito importante, porque você não vê nada das nuvens."

O avião da Air France desapareceu de madrugada, às 5h14 (horário de Brasília), e se supõe que tenha caído. Foi o maior desastre para a Air France nos 75 anos de história da empresa, e o pior acidente já registrado com um A330, modelo fabricado pela unidade da EADS Airbus.

Especialistas dizem que acidentes causados por turbulência ainda são raros. Dos 14.220 incidentes registrados pela Aviation Safety Network (Rede de Segurança Aérea) desde 1943, 73 foram atribuídos a turbulências ou ao vento.

Acidentar-se durante o voo de cruzeiro também é incomum. De acordo com a Boeing, 9% dos acidentes fatais entre 1998 e 2007 aconteceram nessa etapa do voo.

"Se por algum motivo você entra em uma tempestade com raios ou em uma área de turbulência, há procedimentos que indicam como se deve conduzir a aeronave", disse van Zwol. Inclusive o ajuste a uma "velocidade de penetração na turbulência", na qual o avião está melhor preparado para enfrentar essas condições.

Mas mesmo com todo o treinamento e toda a engenharia moderna, quando chega uma turbulência os pilotos simplesmente preferem tomar outro caminho. "Sempre fazemos tudo o que é possível para evitar uma situação como essa", disse van Zwol.

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