Pior é impossível

Quando a gente ouve a direção do PSB dizer que uma "solução pacífica" para o caso de Ciro Gomes seria transformá-lo de candidato a presidente da República em coordenador regional da candidatura Dilma Rousseff no Nordeste, fica em dúvida se escutou direito.

, O Estado de S.Paulo

23 de abril de 2010 | 00h00

Nada mais descortês para alguém que se dispõe a disputar a Presidência que a oferta de um papel secundário na campanha da candidata cujos atributos por ele já foram qualificados em público como limitados.

Agravante: posto este a ser oferecido exatamente para que não volte a fazer críticas semelhantes. Na expressão chula de autoria de um dirigente da campanha petista registrada no jornal Valor Econômico e que o leitor nos permitirá aqui reproduzir, "o pior é ele sair por aí esculhambando a Dilma e o PT".

Quer dizer, parte-se do pressuposto de que Ciro Gomes, até outro dia um considerado, esteja, digamos, disponível para receber ? não há maneira distinta de dizer a coisa ? um cala boca.

Acredita-se também que se não se der a ele um lugar de coordenação na campanha, não comprometê-lo de alguma forma com a candidatura sustentada pelo presidente Luiz Inácio da Silva, Ciro Gomes por vingança, mágoa ou outras coisas mais sairá pelo País explodindo bombas capazes de destruir o projeto de poder do PT.

Ciro Gomes é temperamental, ególatra, verborrágico, mas o juízo político não perdeu e o caráter dele no aspecto em pauta ainda não pode ser julgado pela régua de determinados arquitetos acostumados a urdiduras que tais.

Ou a alguém ocorre que Ciro Gomes possa se embrenhar pelo Brasil numa cruzada contra Dilma, cujo resultado só teria o condão de favorecer seu hiper-inimigo José Serra?

Cumpre só por precaução o registro: o deputado Ciro Gomes não deixou por aqui procuração nem telefonou ou mandou e-mail com argumentos de defesa.

Trata-se de puro exercício lógico.

Entretanto, fala-se em "risco Ciro" e que para evitá-lo a cúpula do PSB estaria trabalhando intensamente para chegar à reunião do próximo dia 27 com a situação resolvida. Qual seja a retirada de Ciro da disputa sem traumas.

Mas, objetiva e concretamente falando, quais traumas?

Nesse ponto, todo mundo tergiversa. O presidente do partido e governador de Pernambuco, Eduardo Campos, submergiu. O PT manifesta aqueles temores de que Ciro se vingue, o PSB acusa o deputado de ter-se isolado e Ciro Gomes diz que se mantém na luta usando agora a internet como trincheira.

Tudo muito esquisito. Segundo cabeças mais ponderadas do PSB, o partido tem uma boa parcela de responsabilidade na confusão porque demorou a decidir, já que desde novembro recebeu sinais do presidente Lula de que gostaria de ver Ciro fora da disputa.

Isso depois de lá atrás ter alimentado expectativas de que ele poderia vir a ser candidato a presidente com o apoio do Palácio.

Tudo muito mal explicado. Lula não conversou com Ciro, que por sua vez criou arestas por todos os lados. Foi para cima do PMDB, atacou o PT, nem Dilma escapou.

Dizia que não importunava o tucano Serra para não irritar o eleitorado que rejeitava o PT e tinha nele, Ciro, a segunda opção de voto. Com isso, contribuía para segurar a subida do adversário. Só que o jogo não estava combinado com o aliado.

O deputado só preservou nesse processo Lula e Aécio Neves, desperdiçando fidalguia em termos de serventia política.

Passaram-se meses sem que nada acontecesse a não ser especulações e a reafirmação de Ciro de que faria o que o partido decidisse. Mas o partido não se mexeu. Só deu sinal de vida quando o deputado publicou um artigo chamando o PSB às falas e o partido reclamou da cobrança pública.

Teria tido resultado mais uma conversa secreta? Pelo visto foi a única maneira de tirar a situação da letargia. Ao que parece, PT e PSB queriam que o tempo resolvesse a questão por gravidade e Ciro forçou uma decisão.

Seja qual for não será boa para ele, muito menos para o PSB que sai dessa história muito pior e mais frágil do que entrou: sem candidato a presidente e pedindo por favor o apoio do PT nos Estados para tentar sobreviver ao tremendo equívoco da subserviência partidária.

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