Pitot tinha ''defeito de fabricação''

Em 2003, órgão francês impediu que A320 decolassem com sondas

Andrei Netto, PARIS, O Estadao de S.Paulo

11 de junho de 2009 | 00h00

O modelo dos tubos de pitot que equipavam o Airbus A330-200 da Air France foi proibido em outros aviões do fabricante em 2003 pela Direção Geral de Aviação Civil (DGAC) da França por um "defeito de fabricação" que levava ao erro na aferição da velocidade. A informação consta de instruções de navegabilidade publicadas nos anos de 2002 e 2003. Nos ofícios, o órgão proibiu que Airbus A319, A320 e A321 decolassem com as sondas, mas não orientou o mesmo procedimento para aviões A330 e A340.Os sensores utilizados no Airbus que caiu no Atlântico eram do modelo PN C16195AA, produzidos pela Thales Avionics. Esses tubos de pitot foram alvo da instrução de navegabilidade da DGAC depois que uma companhia aérea, de nome não revelado, havia "verificado anomalias de indicações de velocidade" decorrentes da obstrução dos canais. "Esse defeito de fabricação contribui para a acumulação de poluição externa que, combinada com condições meteorológicas severas, pode obstruir a entrada de ar dos pitots e estar na origem de uma má detecção da pressão total (Pt) e, logo, de parâmetros errados do CAS/MACH (indicadores de velocidade), dada pela ADR (Air Data Reference)."Falhas do ADR estão entre as indicações existentes nas mensagens automáticas enviadas pelo Airbus A330 da Air France entre 23h10 e 23h14, quando o avião sofreu a pane de sistemas eletrônicos que antecedeu a queda. Essa informação foi confirmada no sábado pelo diretor do Escritório de Investigações e Análises para a Aviação Civil (BEA), Paul-Louis Arslanian, e é uma das pistas centrais para explicar as causas do acidente. No avião acidentado, as sondas não haviam sido substituídas, mesmo com a "recomendação" - não obrigatória - feita pelo fabricante. Desde o acidente, companhias aéreas de todo o mundo, como a TAM, a US Airways, a Swiss e a própria Air France, vêm realizando a troca da peça, embora ainda não haja uma instrução de navegabilidade a respeito. Procurada ontem para comentar as suspeitas sobre o mau funcionamento da sonda e a proibição do uso das peças em modelos A320, e não A330, a DGAC negou-se a falar, alegando que uma investigação técnica e outra jurídica estão em curso em Paris. OUTRAS PANESO Estado descreveu nesta semana casos de panes eletrônicas detectadas entre 2008 e 2009 em A330 de companhias como a Air France e a Air Caraïbes, todos equipados com tubos de pitot Thales PN C16195AA. Essas sondas foram substituídas, por ordem do DGAC e da Agência Europeia de Segurança da Aviação (Easa), nos Airbus A319, A320 e A321, por modelos Thales PN C16195BA, desenvolvidos para enfrentar condições meteorológica extremas, como o congelamento - o que o voo 447 pode ter enfrentado. À reportagem, uma fonte graduada de uma das empresas envolvidas no acidente confirmou que os incidentes ligados a falhas dos tubos de pitot vinham surpreendendo pela frequência. "Até o ano passado, havíamos registrado raros exemplos de panes desses sensores."Segundo o Sindicato Nacional de Pilotos de Linha (SNPL), só a Air France teria registrado seis incidentes relacionados à peça, antes da queda do 447. A companhia reconhece que falhas precedentes aconteceram, mas não deu detalhes.

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