Pitots congelados causaram panes iguais em 2008

Pilotos de 2 Airbus da Air Caraïbes, porém, puderam controlar os aviões

Andrei Netto, PARIS, O Estadao de S.Paulo

10 de junho de 2009 | 00h00

O congelamento dos sensores de velocidade em dois aviões Airbus A330 da companhia francesa Air Caraïbes, em agosto e setembro de 2008, provocaram panes eletrônicas idênticas às indicadas pelas mensagens automáticas enviadas pelo voo AF 447, que realizava a rota Rio-Paris quando caiu no Oceano Atlântico. Um relatório oficial, ao qual o Estado teve acesso, indica que os tubos de pitot - as sondas em questão - falharam depois de expostos a fortes precipitações, combinadas com baixas temperaturas, levando à "incoerência da velocidade aferida" e ao desligamento automático dos sistemas eletrônicos de navegação. Esse erro eletrônico no AF447 foi a primeira informação confirmada pelo Escritório de Investigações e Análises sobre a Aviação Civil (BEA), da França, que apura as causas do desastre. O documento foi assinado pelo oficial de segurança de voos Hugues Houang em 1º de dezembro de 2008. A investigação foi aberta após o registro de dois incidentes com A330 que realizavam a rota Paris-Fort de France, na ilha de Martinica, no Caribe. Em ambos os voos, as condições meteorológicas adversas causaram congelamento das sondas térmicas TAT e dos tubos de pitot do avião. O resultado das panes, com duração de 2 a 3 minutos, foi o desligamento em sequência de sistemas eletrônicos que instruíam a tripulação sobre o voo - como velocidade e altitude. Entre as mensagens Aircraft Communications Adressing and Reporting System (Acars) enviadas automaticamente pelo avião, estava AUTO FLT AP OFF, que indica o desligamento do piloto automático, e RUD TRV LIM FAULT, que aponta desativação do sensor que limita o movimento do leme. Após instabilidade, as tripulações conseguiram reassumir o controle do avião, acionando mecanismo de degelo nos pitots. O relatório informa que foi recomendado à direção da Air Caraïbes a substituição dos tubos de pitot nos quatro Airbus da companhia por novos modelos, também fabricados pelo grupo francês Thales. "No mês de setembro corrente, as sondas ?pitot? Thales PN C16195AA foram substituídas por sondas ?pitots? Thales PN C16195BA", detalhou Houang. "As últimas apresentam um dispositivo de drenagem da água com melhor performance e atestam um melhor comportamento sob fortes precipitações." O perito convocou uma reunião com a Airbus. No documento, Houang afirma que os técnicos da Airbus "tiveram dificuldades para explicar a mensagem ?incoerência de velocidade?". Houang diz que "uma das conclusões é que ?a acumulação de gelo sobre as diferentes sondas se traduziu na aparição do procedimento F/CTL ADR DISAGREE?", que indica o erro na medição da velocidade - pane idêntica à do voo AF 447. Segundo Houang, "os engenheiros da Airbus entenderam a dificuldade da tripulação para aplicar rápida e eficazmente o procedimento para a ?incoerência de velocidade? indicada". Procurada pelo Estado, a porta-voz da Airbus afirmou que a empresa não comentaria as diferenças técnicas entre os dois modelos de pitot. O Thales Group afirmou que "não cabe à empresa tecer comentário a respeito destes fatos". Ontem, após pressão dos pilotos, a Air France se comprometeu a acelerar a substituição dos pitots.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.