Plano de vôo do Legacy apontava turbulência na área de colisão

O plano de vôo do jato Legacy que se chocou com o Boeing 737-800 da Gol no dia 29 mostra que, além de mudar de altitude três vezes, o avião também deveria alterar a velocidade e a aerovia do vôo. Todos esses dados eram de conhecimento dos pilotos americanos do avião. Eles sabiam até que iam enfrentar uma turbulência às 16h56, quatro minutos antes da colisão. Por causa disso, o plano indica até a localização da maleta de primeiros socorros na cabine de comando do jato - ao lado do banco do piloto Joe Lepore.Tentar desviar de uma turbulência é um dos motivos apontados desde o começo da investigação por oficiais da Aeronáutica para justificar o fato de o Legacy ter saído da rota e colidido com o Boeing. O planejamento de um vôo é feito pela tripulação e aprovado pelas autoridades aeronáuticas. No caso do Legacy envolvido no maior acidente da história aérea do País, que deixou 154 mortos, o plano previa que o jato decolasse às 14h30 do aeroporto de São José dos Campos, rumasse em direção a Poços de Caldas (MG) para pegar a aerovia UW2 em direção a Brasília. Nessa etapa, ele estaria a 37 mil pés de altitude (11.225 metros) e a uma velocidade de 972 quilômetros por hora.Ao passar por Brasília, o plano previa que o Legacy diminuísse a velocidade para 820 km/h e a altitude para 36 mil pés (10.922 metros). Mudaria também de aerovia, passando para a UZ6, onde rumaria até Manaus (AM). Em Teres, um ponto virtual de localização aérea a cerca de 300 quilômetros do local do acidente, o Legacy deveria subir para 38 mil (11.529 metros) e diminuir a velocidade para 808 km/h. ?Essa mudança é feita para alcançar a melhor performance da aeronave?, afirmou um oficial da Aeronáutica.O plano previa que, caso o Aeroporto Eduardo Gomes, em Manaus, estivesse fechado, o jato pilotado por Lepore pousaria no aeroporto de Boa Vista (RR). O tempo estimado de vôo até o destino final era de 3 horas e 34 minutos - com a chegada às 17h30 (hora local, uma a menos do que a de Brasília).Com base nesses dados, a Aeronáutica tem certeza de que os pilotos do Legacy cometeram o erro de entrar na contramão da aerovia UZ6. É que o acidente ocorreu a 37 mil pés. Na UZ6, as altitudes ímpares são reservadas para quem voa em direção ao sul, a exemplo do Boeing, e as pares, para quem vai ao norte, como o Legacy. Se esse é um ponto já esclarecido, o que os peritos querem descobrir agora é por que o transponder do Legacy não estava funcionando no momento do choque.HipótesesO transponder é o aparelho de comunicação eletrônico que emite sinais do avião ao centro de comando em terra e outros aviões. Os sinais identificam a aeronave com o número de vôo e a companhia aérea a que pertence e sua altimetria. É por essa freqüência que são enviados dados ao sistema anticolisão, chamado de TCAS, que deveria dar o alerta de que o jato rumava em direção ao Boeing. Como o aparelho do Legacy não estaria ligado, sua altimetria exata não foi detectada pelos radares que controlam o vôo na região e a sua aproximação não foi percebida pelo avião da Gol.Há pelos menos três hipóteses que justificam o não funcionamento do transponder: ter sido desligado pelo piloto, sofrido uma pane ou ficado em stand-by. Nesse último caso, o equipamento não estaria desligado, mas funcionando em espera. Isso poderia ocorrer caso ele estivesse aguardando a digitação de uma nova freqüência de identificação no momento do choque com o Boeing da Gol.É provável que, ao mudar de aerovia, em Brasília, o Legacy tivesse de alterar o código de freqüência do transponder, para manter o aparelho ligado. Para que o equipamento entre em funcionamento é preciso que o piloto pressione o botão ?IDENT? no painel de controle do avião e digite a freqüência que o centro de controle fornece a ele. ?Toda vez que muda de aerovia, uma nova freqüência é fornecida?, disse um piloto.Três pilotos e um oficial da Aeronáutica ouvidos pelo Estado admitiram essa possibilidade. ?Não é comum perder sinal do transponder. O Legacy não estava longe de Brasília para perder o sinal?, afirmou um experiente piloto, com mais de 30 anos de trabalho.Para o aeronauta, sem a nova freqüência seria possível que o transponder do Legacy, apesar de ligado, não emitisse sinal do avião para o controle de Brasília. ?O sinal desapareceu do radar, que ficou sem identificação do vôo e da companhia. É como ao se tentar sintonizar uma rádio, antes de chegar à emissora desejada, ouvir um chiado. No caso do transponder, antes de chegar à freqüência informada pelo comando, a identificação do avião desapareceu. Foi aí que o comando começou a chamar o Legacy, por sete vezes, e não obteve contato.?Mas, segundo a Aeronáutica, esse não era o caso do plano de vôo do Legacy. ?Ele devia seguir até o fim com seu código. Não tinha de mudar. O Legacy estava voando sob vigilância de radar. Ele é que controla o avião e deve manter o perfil do plano de vôo, mesmo sem contato com o controle de terra?, afirmou um oficial da Aeronáutica.Para os pilotos, caso houvesse mudança, é possível que, ao não entender corretamente a freqüência repassada por Brasília, o co-piloto do Legacy não tenha digitado o código certo, o que deixaria o transponder do jato em stand-by. Isso teria feito a identificação do Legacy desaparecer das telas dos radares. Colaborou Marcelo Godoy

Agencia Estado,

10 de outubro de 2006 | 09h19

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