Plano era voltar a ser o nome do mercado

Palocci pretendia reabilitar-se como avalista da política econômica, comandar articulações da reforma tributária e retomar trilha perdida em 2006

Lu Aiko Otta / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

08 de junho de 2011 | 00h00

Durou pouco tempo o projeto de Antonio Palocci de reabilitar-se como fiador da racionalidade econômica no governo. Ele pretendia, no governo de Dilma Rousseff, comandar as articulações em torno da reforma tributária e de toda a agenda de medidas necessárias ao aumento da competitividade das empresas brasileiras. Seria, assim, responsável por um salto econômico tão importante quanto a criação de um mercado interno de massa, principal feito da administração de Luiz Inácio Lula da Silva.

Se tudo corresse como o planejado, ele poderia até sonhar em retomar a trilha perdida em 2006: a de presidenciável. Mas ontem, pela segunda vez, teve sua trajetória interrompida. Desta vez, pela nuvem de suspeitas sobre negócios que lhe permitiram arrecadar pelo menos R$ 20 milhões em quatro anos e comprar um apartamento de R$ 6,6 milhões para investir.

Episódios mal explicados também estão na raiz de sua queda em 2006. Ele foi acusado de quebrar o sigilo bancário do caseiro Francenildo dos Santos Costa, depois de ele ter afirmado ao Estado ter visto o então ministro da Fazenda em uma casa onde amigos de Ribeirão Preto se divertiam e firmavam negócios não republicanos.

Em 2002, Palocci surgiu como um oásis de tranquilidade para um mercado financeiro tomado pelo medo do que poderia acontecer à economia brasileira sob um governo de esquerda. Ele patrocinou a Carta ao Povo Brasileiro, no qual Lula, então candidato do PT, se comprometia a não romper contratos.

Nomeado ministro da Fazenda, ele promoveu um duro ajuste nas contas públicas e impulsionou uma agenda de reformas microeconômicas. Assim, conquistou o mercado financeiro. Mais tarde, quando o caixa federal permitiu, autorizou vários cortes de impostos que facilitaram o investimento. Ganhou o setor produtivo.

O grande empresariado ajudou-o a eleger-se deputado federal em 2006.

No Congresso, Palocci ocupou-se de temas econômicos importantes, como a prorrogação da Contribuição Provisória sobre a Movimentação Financeira (CPMF), o fundo social a ser formado com recursos da exploração do pré-sal e a reforma tributária.

A saída de Palocci não deverá, porém, provocar nenhum abalo mais forte no mercado. Já não há tanta dúvida sobre a capacidade dos petistas de manter as contas razoavelmente ajustadas. "Não dá para achar que ele passou esses cinco meses fazendo política fiscal", observou o economista-chefe do banco Fator, José Francisco de Lima Gonçalves. "Ele devia estar ocupado de outros temas, como aeroportos."

Outro economista que não quis se identificar observou que o ministro da Casa Civil era um anteparo importante para a presidente. "São 27 governadores, 5 mil prefeitos e uma base de apoio que tem o PMDB querendo interferir no Orçamento", observou. "Mas não creio que uma ou outra liberação de verbas vá prejudicar a política fiscal." Além disso, a tal agenda econômica que ele pretendia tocar anda a passos de tartaruga nas engrenagens do governo. As propostas de reforma tributária, por exemplo, ainda não desembarcaram no Congresso.

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