''''Plebeus'''' sofrem para manter castelos

Eles gastam muito com restauração e reformas, mas se orgulham de preservar uma parte da história do Rio

Clarissa Thomé, O Estadao de S.Paulo

04 de novembro de 2007 | 00h00

O nome é o de um nobre russo e a casa, um palacete de 500 metros quadrados do início do século passado. Terminam aí as semelhanças entre Vacili Caetano Marins e a realeza. Na verdade, ele é um professor de matemática aposentado que deu a sorte de arrematar a Vila Rocha, em Santa Teresa, zona sul do Rio, por um quarto do valor de mercado, em leilão judicial. Como Marins, outros plebeus vivem em castelos e palacetes do Rio. O estilo eclético fez sucesso entre a burguesia carioca entre o fim do século 19 e a década de 30. Hoje, as construções que resistiram à especulação imobiliária - a prefeitura não tem levantamento oficial - encantam quem passa por elas e dão trabalho aos proprietários. "A conservação é muito cara. Se eu deixar um vitral quebrado, o patrimônio multa. Mas não posso mexer na fachada e, para instalar uma grade de proteção, é preciso enfrentar a burocracia até obter a aprovação", conta o professor. Ele tem orgulho de mostrar a casa em que vive e serviu de locação para o filme Fica Comigo Esta Noite, de João Falcão. Quando se mudou para lá, há oito anos, mandou retirar o piso que encobria azulejos hidráulicos de 1900. Na sala, descobriu que os antigos proprietários haviam encoberto com massa branca um afresco das paredes. Uma restauradora devolveu ao local a paisagem de um parque, com moças brincando. "Ela retirou a massa com bisturi."O aposentado construiu dois apartamentos no "subsolo", que estão alugados. A torre do palacete também foi arrendada por uma escritora, que usa o local como escritório. A verba extra ajuda na manutenção. "A isenção de IPTU não é suficiente - é de R$ 1 mil. Só esse pedaço do vitral (um vidro de 3 centímetros) custou R$ 250."Marins tem outros palacetes e castelos como vizinhos, incluindo a residência oficial do Consulado da Alemanha, em Santa Teresa. Nem todos querem falar sobre a casa em que vivem. "As pessoas pensam que quem mora em palacete tem dinheiro. Não imaginam que a gente gasta tudo o que tem para manter. Prefiro não aparecer", disse uma mulher ao Estado. O mais famoso dos castelos cariocas está também em Santa Teresa. É o Valentim, construído pelo comendador Antônio Valentim do Nascimento em 1880. À distância, chamam a atenção as torres, muralhas, guaritas e seteiras. Em 1938, o filho do comendador, o arquiteto Fernando, dividiu o castelo em oito apartamentos. Três são ocupados por herdeiros e cinco estão alugados.A analista de sistemas Izar Amaral Valentim, de 68 anos, filha de Fernando, é uma das herdeiras que ainda reside no castelo. "Até hoje os amigos dos meus filhos se assombram quando vêem o castelo." Dificilmente os apartamentos ficam vazios. "Sempre bate alguém, perguntando se há imóvel para alugar", conta a analista. Também são freqüentes os pedidos para conhecer o castelinho, que, como a Vila Rocha, tem história contada nos guias turísticos de Santa Teresa. DESOLADANo Flamengo, Olga Braz Néri, de 70 anos, reage desolada ao falar do palacete em que vive há 50 anos. "Quisera eu que alguém aparecesse para comprar", diz. O casarão de 1912, cuja fachada tem estuques esculpidos por Waldemar Bocdanoff, está malconservado, com ferragens aparentes. "Meus irmãos e eu vivemos de aposentadoria. Só para recuperar o telhado, gastei R$ 10 mil. O poder público devia assumir a conservação dessas casas."

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