PM acusado de dois assassinatos em MG é encontrado morto

Policial foi encontrado enforcado com o cordão usado para prender o calção que trajava

Marcelo Portela e Solange Spigliatti, Central de Notícias

25 de fevereiro de 2011 | 12h35

BELO HORIZONTE - Um dos policiais militares suspeitos de envolvimento em um duplo assassinato no Aglomerado da Serra, na região centro-sul de Belo Horizonte, foi encontrado morto em uma cela do 1º Batalhão da Polícia Militar (BPM) às 7h30 desta sexta-feira, 25. O cabo Fábio de Oliveira, de 45 anos, estava na unidade desde quarta-feira, quando teve a prisão preventiva decretada. Ele saiu preso do depoimento prestado no Inquérito Policial-Militar (IPM) instaurado para investigar as circunstâncias em que o dançarino Jeferson Coelho da Silva, de 17 anos, e seu tio, o auxiliar de enfermagem Renilson Veriano da Silva, de 39, foram mortos.

 

Segundo o tenente-coronel Alberto Luiz Alves, chefe da Assessoria de Comunicação da PM mineira, o acusado foi encontrado enforcado com o cordão usado para prender o calção que trajava. De acordo com Alves, o cabo temia ser condenado pelas mortes, mas não demonstrou nenhuma angústia excessiva no dia anterior, que chegou sair para o banho de sol a receber as visitas de uma das filhas e da ex-mulher. Ele estava sozinho na cela.

 

O oficial também negou que tenha havido falhas na guarda de Oliveira e descartou a possibilidade de o cabo ter sido morto. "Não é o momento de nos precipitarmos dizendo que alguém tenha feito isso. O companheiro cometeu suicídio no interior da cela. Não houve falha, mesmo porque não havia nenhum indício de que isso pudesse acontecer. Quem quer atentar contra a própria vida pode usar até a camisa", declarou, ressaltando que o acusado tinha a ficha funcional limpa. Já o advogado do cabo, Ricardo Guimarães, se encontrou com o cliente no dia anterior e disse que ele estava "muito tranquilo, muito consciente de tudo".

 

Além de Oliveira, também estão presos os soldados Jason Ferreira Paschoalino que está no 36º BPM, Adelmo de Paula Zucheratti, recolhido em uma cela do 5º BPM, e Jonas David Rosa, preso no 39º BPM. Todos são lotados no Batalhão de Rondas Táticas Metropolitanas (Rotam). Eles afirmaram que, na madrugada do último sábado, 19, encontraram as vítimas na favela em meio a um grupo de cerca de 20 pessoas, parte delas fardada, que recebeu a guarnição a tiros. Os policiais alegaram que os dois estavam armados e carregavam uniformes da PM.

 

No entanto, diversas testemunhas ouvidas na Delegacia de Homicídios da Polícia Civil contestaram a versão, negaram que as vítimas carregassem armas ou fardas e acusaram os militares de executarem a dupla, que não tinha envolvimento com crimes. Após as mortes, moradores do aglomerado, o maior da capital mineira, atearam fogo em três ônibus, promoveram protestos e entraram em confrontos com policiais durante todo o fim de semana passado. Somente na sexta-feira o transporte coletivo e as aulas foram normalizados na área.

 

O laudo de necropsia elaborado pelo Instituto Médico-Legal (IML) também afirmou que Jeferson e Renilson foram mortos com dois tiros no peito cada, disparados a queima-roupa por armas de grosso calibre. Fuzis e pistolas dos policiais foram apreendidos para serem periciados, assim como as fardas que estariam com as vítimas. As investigações têm a participação do Ministério Público e são acompanhadas por comissões da Assembleia Legislativa e da seção mineira da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB/MG).

 

Depois de o corpo do cabo Oliveira ter sido encontrado, a Associação dos Praças Policiais e Bombeiros Militares de Minas Gerais (Aspra) promoveu um a manifestação em frente ao 1º BPM. Os manifestantes protestaram contra o tratamento dado aos acusados e as várias acusações de homicídios, agressões e abuso de autoridade feitas a integrantes do Batalhão Rotam após as mortes na favela.

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