Silvio Avila/ AFP
Silvio Avila/ AFP

PM atuou como segurança do Carrefour pela 1ª vez no dia do crime; empresa também afastou funcionária

Giovane da Silva foi contratado para suprir a falta de outro vigia e aceitou serviço para ampliar a renda 

Lucas Rivas, especial para o Estadão

24 de novembro de 2020 | 05h00

PORTO ALEGRE - Preso após matar João Alberto Freitas, de 40 anos, o policial militar temporário Giovane Gaspar da Silva, de 24 anos, trabalhava pela 1ª vez como segurança terceirizado do Carrefour no dia do crime. Ele foi contratado para suprir a falta de outro vigia, em jornada de 12 horas. Silva e outro segurança foram filmados durante o espancamento e afastados do Carrefour. A empresa informou nesta segunda-feira ter afastado também a funcionária do próprio Carrefour, que aparece de blusa branca no vídeo da agressão, e não interfere.

“Aquele tinha sido o primeiro dia dele (Silva) no mercado e o pior, faltava apenas uma hora para ele ir embora. Na verdade, ele foi contratado por um outro colega, que iria realizar o pagamento do serviço diretamente para ele”, disse o advogado do PM temporário, David Leal.

Embora seja vedada atuação de PMs no horário de folga, Silva aceitou o serviço para ampliar a renda familiar, afirmou o advogado. “Ele viu que o bico não servia para ele, mas quis complementar a renda. Ficou com receio de aceitar o trabalho, que acaba sendo mal visto. Ele estudava para concurso e tinha o sonho de ser policial rodoviário federal.”, disse o defensor.

Ele afirma que Silva não tinha vínculo empregatício com o Grupo Vector, empresa responsável pela fiscalização na unidade do Carrefour. Já o Grupo Vector disse que ele havia sido contratado no dia 19, estava devidamente registrado e teve o vínculo rescindido no dia seguinte ao assassinato. 

Leal diverge da prisão em flagrante. Os dois seguranças vão responder por homicídio triplamente qualificado - por motivo fútil, asfixia e recurso que impossibilitou a defesa da vítima. Na noite de quinta, eles ficaram em silêncio durante a detenção. “Houve homicídio culposo, provavelmente, pela pressão exercida quando ele foi imobilizado. Meu cliente atuou para conter a agressão. Não teve nenhum cunho racial.” 

Sobre o envolvimento de um PM temporário na morte de João Alberto, o comandante da Brigada Militar, Coronel Rodrigo Mohr Picon, explicou que a função dele é de substituir os PMs de carreira que trabalham na rua por funções internas. “Ele não está no vínculo com o Estado e deve estar respondendo um PAUD demissionário nos próximos dias, deve ser retirado da corporação e responder civilmente pelo crime”, advertiu o comandante da Brigada. Procurado, o Grupo Vector informou que ele foi contratado no dia 19, que estava devidamente registrado e que não estava fazendo bico, tendo o vínculo rescindido um dia depois do ocorrido.

O Estadão não conseguiu contato com a defesa do outro vigia, Magno Braz Borges. O Carrefour não informou o nome ou a função da funcionária afastada nem se estuda demiti-la. A Polícia Civil já havia dito que pode investigar as outras pessoas vistas na cena do crime por omissão de socorro. “Já ouvimos mais de vinte pessoas no inquérito e vamos seguir realizando as diligências.”, disse Roberta Bertoldo, a delegada responsável pelo caso. A investigação tem prazo de 10 dias para concluir o inquérito a partir da instauração. Caso contrário, os trabalhos podem ser estendidos por mais 15 dias.

Loja reabre com movimento baixo

A loja do Carrefour onde João Alberto foi morto reabriu nesta segunda-feira em Porto Alegre, após três dias fechada. No local, era possível ver rastros da manifestação de sexta, em que houve invasão e depredação do estabelecimento. Lojistas e frequentadores do supermercado relatam que já flagraram excessos dos vigilantes. 

Pichações, cartazes e flores em homenagem à vítima eram visíveis nas grades do Carrefour. Na parte interna, o clima era de tensão; funcionários com semblante preocupado trocavam poucas palavras e o movimento era bastante abaixo do normal. Ênio Dagoberto de Lima, de 67, é ambulante monta sua barraca com chapéus e camisetas na parte externa da loja. Segundo ele, o comportamento agressivo dos seguranças já era perceptível. “Sempre tinha umas mulheres que vendiam macela (tplanta). Eu vi vezes em que esses dois seguranças colocaram elas para rua com as crianças e tudo”, diz. 

Em nota, o Carrefour disse dar assistência aos lojistas. Para as lojas com avarias, disse estar em contato com os responsáveis para avaliar medidas.

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