PM começa a patrulhar favela, palco de conflito

Por tempo indeterminado, Tiquatira será ocupada por 60 homens

Felipe Oda e José Dacauaziliquá, O Estadao de S.Paulo

15 de maio de 2009 | 00h00

O dia começou tranquilo, ontem, na Favela Tiquatira, na Penha, zona leste de São Paulo. No entanto, as marcas do protesto de moradores contra a prisão de Vagner Barbosa da Silva, de 19 anos - considerado pela Polícia Militar como um suposto traficante -, que parou o trânsito na Marginal do Tietê e deixou seis pessoas feridas e quatro veículos incendiados, anteontem, ainda podiam ser vistas na Avenida Gabriela Mistral. Enquanto funcionários da Subprefeitura da Penha recolhiam o lixo e as cinzas acumuladas pelo incêndio e os técnicos da Eletropaulo faziam a manutenção dos fios elétricos atingidos pelo fogo, os moradores da região limpavam as casas e questionavam a "aparente calmaria". "Eles (os PMs) disseram que vão entrar na favela. É só a imprensa sair e eles virão para cima de nós", afirmou a dona de casa Tatiana Araújo.O tenente-coronel Eduardo Espósito, do 51º Batalhão, que atende a região, afirmou que 60 policiais militares em 18 viaturas ocuparão por tempo indeterminado a Tiquatira. De acordo com o oficial, os PMs farão patrulhamento na favela em busca de foragidos da Justiça, drogas e armas. A polícia ainda deverá se reunir com os líderes da comunidade.Durante a tarde, a polícia iniciou o patrulhamento. Por volta das 14h30, W.G., de 17 anos, foi detido sob a acusação de ser "olheiro do tráfico". "Eles estão querendo pegar os dois rapazes que fugiram ontem (anteontem). Qualquer um será parado e preso", afirmou uma moradora que não quis ser identificada. Às 19 horas, o jovem foi solto.AGRESSIVIDADE"Ele estava em casa e foi jogar bola na quadra. Deixou a mulher e o filho em casa. A polícia chegou enquadrando o pessoal de uma maneira agressiva", disse Maria Cristina Barbosa, de 39 anos, mãe de Vagner da Silva, que teria sido o centro do conflito. Ela também foi presa por desacato, mas acabou liberada no mesmo dia. Vagner permanece preso. "Fui para cima dos policiais para eles não matarem meu filho", afirmou Maria. Sobre o confronto com a população, o tenente-coronel Espósito classificou o episódio de "ato criminoso" e não de protesto. Os moradores da Tiquatira garantem que a reação violenta contra os policiais foi provocada pelas agressões à mãe de Vagner. "Não estamos certos, mas queimamos tudo só depois que eles (policiais) bateram na senhora", disse uma moradora. "Ninguém acha errado prender traficante, mas o menino não era envolvido com nada."A comunidade também estava revoltada com a informação divulgada pela PM de que moradores teriam arremessado um bebê de 11 meses pela janela de um ônibus articulado que foi incendiado. "A mãe da criança estava com o bebê no colo e segurando a outra filha pela mão. Na descida do ônibus, o bebê escapou e caiu no meio-fio da rua. Eu a peguei, ajudei a mãe e a outra menina. Levei as três para minha casa e depois para o Hospital Tatuapé", contou o chaveiro Luiz Silva, de 43 anos. A família de Karina Souza Lopes, de 24, mãe das duas crianças, S., de 11 meses, e M., de 5, confirmou a versão do morador, que guardou em sua casa as roupas do bebê, ainda sujas pela queda na rua. As três ficaram feridas, mas apenas a mais nova permanece internada.INVESTIGAÇÃODe acordo com Espósito, a PM começou a investigar as atitudes dos policiais envolvidos desde a prisão do suspeito até o fim do confronto. O ouvidor das polícias do Estado de São Paulo, Antonio Funari Filho, entrou ontem com uma representação junto à Corregedoria da Polícia Militar, cobrando informações sobre o episódio. FRASESTatiana AraújoDona de casa"Eles disseram que vão entrar na favela. É só a imprensa sair e eles virão para cima de nós"Maria Cristina BarbosaMãe do rapaz preso"O Vagner estava em casa e foi jogar bola na quadra. Deixou a mulher e o filho em casa. A polícia chegou enquadrando o pessoal de maneira agressiva"Luiz SilvaChaveiro"A mãe da criança estava com o bebê no colo. Na descida do ônibus o bebê caiu. Eu levei as três para o Hospital Tatuapé"

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