PM critica substituição de fuzis e carabinas para policiamento

Segundo eles, não adianta usar outro tipo de arma se os policiais não forem treinados para usá-las

Clarissa Thomé e Marcelo Auler, Agência Estado

30 de julho de 2008 | 20h27

Líderes de entidades de classe da Polícia Militar ouvidos pelo Estado criticaram nesta quarta-feira, 30, o anúncio feito pelo secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, de que a corporação substituirá os fuzis por carabinas no policiamento ostensivo. Segundo eles, não adianta usar outro tipo de arma se os policiais não forem treinados para usá-las. O uso de fuzis, cujos tiros têm longo alcance e alto poder de destruição, em área urbana, é um dos motivos de críticas de especialistas à política de segurança do Estado do Rio de Janeiro. "Um mosquetão do século XVIII também tem poder letal, se você souber como se usa. Tem que ter treinamento. Um policial nos Estados Unidos dá mil tiros por ano em treinamento. Aqui, um PM fica até 5 anos sem atirar em treinos . Simplesmente porque falta munição", disse o presidente da Associação dos Militares Auxiliares e Especialistas (Amae), tenente Melquisedec Nascimento. Nascimento disse que concorda com a "visão do governador". "A polícia não pode ficar numa escalada armamentista com o crime - se o traficante usa bazuca, a PM não pode jogar uma bomba atômica. Mas o policial militar tem que saber como, seja a pistola, a carabina ou o fuzil". O presidente da Associação de Cabos e Soldados da PM, Vanderlei Ribeiro, não acredita que a substituição do fuzil pela carabina no patrulhamento vá reduzir os índices de morte em confronto ou de balas perdidas. "Não há resultado se você tem policiais despreparados, desmotivados, que não seguem uma estratégia de segurança clara. Se a cabeça não pensa, pode dar o instrumento que for, que o resultado será o pior", disse. Ontem, Beltrame informou que as carabinas foram compradas pela Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp) em maio e chegam ao Rio no fim de agosto. Mil delas serão distribuídas para a Polícia Militar, para ações de patrulha. O secretário disse que os fuzis continuarão a ser usados pelas tropas de elite e em incursões em áreas dominadas por facções criminosas. "Quando formos enfrentar o tráfico, vamos de igual para igual. Não vou permitir que o policial enfrente em desigualdade de condições", afirmou. Segundo Beltrame, as carabinas serão testadas, antes que nova compra seja feita. "É uma medida que estamos tomando para diminuir a letalidade. Muitos acidentes de bala perdida são estilhaços de fuzil.", afirmou. Ele citou o caso do menino João Roberto Amorim Soares, de 3 anos, morto no dia 7 de julho, um dia depois de policiais militares terem disparado contra o carro de sua mãe. "Se fosse fuzil na cabeça, ele teria morrido naquele momento. Deve ter sido estilhaço", afirmou.

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