PM desviaria munição para o tráfico

Além dele, ex-instrutor de tiro da Rota, há mais 3 pessoas presas, acusadas de abastecer Comando Vermelho, no Rio

Marcelo Godoy, O Estadao de S.Paulo

04 de setembro de 2009 | 00h00

Caixas de munição da Polícia Militar de São Paulo eram desviadas do centro de suprimentos da corporação para abastecer o Comando Vermelho (CV), no Rio. Quatro acusados estão presos, entre eles o 1º sargento Ricardo Tadeu de Souza Ferraz, de 43 anos, que trabalhava no centro e fora instrutor de tiro dos policiais das Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota).

A descoberta foi feita depois da prisão da dona de casa Aparecida Maria da Silva, de 27 anos, ocorrida em um posto de pedágio na Via Dutra, próximo de Arujá, na Grande São Paulo, em 29 de julho. A mulher estava com 2 mil cartuchos de fuzil calibre 7,62 mm que seriam levados para traficantes da favela da Rocinha (leia mais ao lado), no Rio.

A mulher foi detida quando o ônibus em que viajava foi revistado por policiais rodoviários federais. A Polícia Civil de Guarulhos continuou a investigar a origem dos cartuchos e descobriu que eles haviam sido vendidos pela Companhia Brasileira de Cartuchos (CBC) para o Centro de Suprimento e Manutenção de Armamento e Munição da PM de São Paulo.

A informação chegou no dia 7 de agosto aos policiais civis. Ao mesmo tempo, eles descobriram que Aparecida não estava sozinha no ônibus quando foi detida. Em uma agenda apreendida com ela, eles descobriram anotações e dois números de telefone que os levaram aos acusados Carlos do Rosário Santos, de 30 anos, e Paulo Eduardo Correa dos Santos, de 34.

A Justiça decretou a prisão de Carlos e permitiu aos policiais que revistassem a casa de Paulo Eduardo. Carlos disse que ia a passeio com Aparecida para o Rio e um outro casal de amigos - Paulo Eduardo e Marli Dantas Silva. Marli e Paulo ficariam na Rocinha. Ele retornaria logo para São Paulo. Carlos afirmou que Marli tinha contato com um policial militar que seria instrutor de tiro da Rota e teria entregue a munição.

Com base nas informações dele e nas que foram dadas por Paulo Eduardo, os investigadores obtiveram novos mandados de busca. A casa do sargento da PM foi revistada e a prisão dele e de Marli foi decretada pela Justiça - a mulher permanece foragida. Acompanhados pela Corregedoria da PM, os investigadores encontraram na casa do PM, no Belenzinho, na zona leste da capital, uma caixa do mesmo lote de munição vendido pela CBC para a PM e que foi apreendida com Aparecida, além de uma agenda com uma tabela de preços da munição.

Os policiais também encontraram 550 cartuchos para fuzil de calibre 5,56 mm, 50 cartuchos de munição 357 para revólver e 20 munições para espingarda calibre 12. O policial foi autuado em flagrante pela posse ilegal das munições - ele alega inocência.

No relatório feito pela Polícia Civil, os investigadores escrevem que "é inadmissível pensarmos ou imaginarmos que as munições para fuzil tinham como destino provável a favela da Rocinha, no Rio, onde as normas são ditadas pelo crime organizado, consubstanciado no denominado Comando Vermelho".

Os investigadores enviaram as informações ao Ministério Público, que se manifestou pela decretação da prisão preventiva dos acusados. A Justiça concordou. Além do sargento e de Aparecida, permaneceram presos Carlos e Paulo Eduardo. Os policiais agora querem saber quantas remessas de munição da PM de São Paulo abasteceram o Comando Vermelho.

Há 10 dias, policiais civis detiveram na região da Favela de Heliópolis, zona sul de São Paulo, um homem com 180 cartuchos de fuzil calibre 7,62 mm. Descobriu-se que esse lote também havia sido vendido pela CBC à PM. A munição teria sido desviada por um soldado, que também trabalharia no centro de suprimentos da PM.

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