PM detém 3 durante o toque de recolher

Transporte de comida tem escolta

Júlio Castro, O Estadao de S.Paulo

29 Novembro 2008 | 00h00

No primeiro dia da Operação Toque de Recolher, implementada pela Polícia Militar em todas as cidades atingidas pela enchente em Santa Catarina, três pessoas foram detidas, uma delas com mandado de prisão. Não houve notícias de novos saques, mas a situação é tensa em Itajaí, sobretudo pelas filas nos locais de atendimento. Em toda a região, o medo se disseminou.O policiamento ostensivo, que recebeu o reforço nesta sexta-feira de cerca de 800 homens, foi anunciado pelo comando-geral da Polícia Militar catarinense, dirigido pelo Coronel Eliésio Rodrigues. A iniciativa visa a preservar a segurança nos mais de cem abrigos e dezenas de alojamentos, além de atuar nas áreas de risco em todos os estabelecimentos comerciais e residenciais das cidades. A Polícia Militar ainda começou a fazer patrulhamento aéreo, para garantir que não ocorram crimes.Desde quinta-feira, vigora uma portaria que impede a circulação de pessoas em áreas calamitosas ou consideradas de risco após as 22 horas. A determinação é válida para o período em que persistir o estado de calamidade. A maior incidência de delitos no período de seis dias de enchentes aconteceu em Itajaí, onde 120 agentes da polícia civil e 350 militares estão atuando. O Estado percorreu de carro algumas ruas de Itajaí na madrugada de ontem, mas não encontrou nenhum veículo da polícia abordando os moradores ou fazendo algum tipo de blitz. Os únicos policiais de Itajaí estavam na entrada de abrigos, conversando e fumando. Eles carregam agora um folheto da Polícia Militar do Estado de Santa Catarina com uma fotocópia da portaria 816 de 25 de novembro, "que dispõe da atuação e controle por parte da Polícia Ostensiva visando à preservação da Ordem Pública em áreas críticas em situação de emergência ou calamidade pública." Os policiais que mostraram essa cartilha para a reportagem, porém, não a usaram nenhuma vez na madrugada.Agora, outro foco de preocupação é a chegada dos caminhões carregados de mantimentos nas localidades: é freqüente o acúmulo de pessoas nas ruas - comprometendo a igualdade na distribuição da comida. Conforme o delegado da Polícia Civil André Mendes de Oliveira, a proposta é diminuir o tumulto nestas ocasiões. "Isso prejudica não só o trabalho da polícia, que demora em descarregar, como das mulheres e das crianças que não conseguem ter acesso aos alimentos", comenta. A principal ocorrência de saque registrada em Itajaí se deu na manhã de segunda-feira no Supermercado Maxxi, quando 28 pessoas foram detidas. Mas surgiram agora registro de histeria. Anteontem, enquanto os bombeiros coordenavam o trabalho de busca, a ameaça de saque em um supermercado causou apreensão e desespero nos moradores da Rua Leopoldo Hess, no Centro da cidade de Luís Alves. Uma ligação anônima avisou que moradores de Itajaí estariam se deslocando para invadir o Supermercado Nilo Goedert, um dos maiores da cidade.Em minutos, a gritaria tomou conta dos funcionários, que colocaram carrinhos do mercado na frente dos portões do estabelecimento. Alguns clientes e moradores, com medo de danos, retiraram os carros à pressas do local. Outros se armaram de pedaços de pau e trouxeram até cães, da raça pit bull e rottweiler. A Polícia Militar foi acionada e chegou ao local, dirigindo-se também à entrada da cidade, na BR-470, para verificar a movimentação dos veículos. Apesar do susto, no entanto, a denúncia foi infundada. FILASOito policiais civis são responsáveis pela escolta diária dos mantimentos aos abrigos, em Itajaí. Conforme o tenente-coronel, Carlos Alberto Mafra, a cavalaria do batalhão composta por 40 homens também realiza rondas ostensivas por toda a cidade, onde cerca de 11 mil pessoas estão desabrigadas e outras 30 mil estão desalojadas. A busca por alimentos criou um clima de tensão, que ainda preocupa os agentes. Desabrigados fazem fila pela cidade à espera de cestas básicas.No local, as histórias de desespero se multiplicam. Com lama na roupa e no cabelo, Valcélia Custódio e Rosicléia Coninck dividiam água numa garrafa plástica. Depois de horas na fila formada à frente de um improvisado centro de abastecimento, conseguiram um quilo de arroz, um de feijão e um litro de leite. "Isso vai durar um dia, pois na minha casa são quatro pessoas. É muito triste", conta Rosicléia. Desde domingo, Maria Silva da Cruz, de 61 anos, se alimenta de biscoitos e salgadinhos doados. Depois de horas na fila, ao chegar sua vez, soube que a distribuição de pacotes havia parado. Quem insistia ganhava água. "Estou comendo qualquer coisa. Estava com água no primeiro andar da minha casa. Vizinhos me ajudaram. Faço hemodiálise e só ontem (nesta quinta) voltei ao tratamento."Moradores andam pelas ruas assustados, não só com o cenário desolador, mas com a aproximação de pessoas estranhas, com medo de assaltos. Depois de receber a cesta básica em pontos de abastecimento, os moradores são acompanhados a distância por policiais militares até a chegada ao abrigo ou a suas casas. Há policiais fazendo ronda até na área de separação de roupas. E o Exército também é visto pelas ruas, com soldados também de rosto fechado.

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