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PM do Ceará invade casa e mata adolescente de 13 anos

Morte de Mizael Fernandes da Silva causou revolta entre parentes e moradores da cidade de Chorozinho, que protestaram. Secretaria diz investigar o caso e policiais alegam que vítima estaria com arma de fogo

Lôrrane Mendonça, O Estado de S.Paulo

05 de julho de 2020 | 21h14

FORTALEZA - O adolescente Mizael Fernandes da Silva, de 13 anos, foi morto em uma ação da Polícia Militar do Ceará, que invadiu a casa onde ele dormia e o atingiu com um disparo de arma de fogo. A morte aconteceu na madrugada de quarta-feira, 1, em Chorozinho, a 70 quilômetros de Fortaleza. A família denunciou a violência policial e disse que a cena foi alterada para dificultar a investigação. A Secretaria da Segurança Pública diz que o caso está sendo investigado e os policiais alegam que o jovem estaria armado, o que é negado pela família. 

Mizael tinha o sonho de ser vaqueiro e estava na casa da tia quando policiais do Comando Tático Rural (Cotar), da PM, invadiram o local e ordenaram que todos saíssem.  “Foi só um tiro. O barulho da bala ainda é muito presente. Ele estava dormindo, eu acho que ele nem sabe que morreu. Depois que o policial atirou, ele disse 'fiz merda' e não deixou ninguém mais entrar”, relembra Canoa Rodrigues, tia de Mizael.  "Mizael estava dormindo, mesmo assim, eles entraram sem permissão e executaram meu sobrinho”, acrescentou. 

O adolescente morava com a família do pai, José Vicente, em uma pequena fazenda na zona rural da cidade de Barreira. O garoto havia ido a Chorozinho para visitar a avó, Luiza Rodrigues, por quem foi criado e, após a visita, ele procurou a tia, Lizangela Rodrigues, para tratar de uma doença de pele, já que ela tem experiência na área da saúde. 

Victor Fernandes, primo de Mizael, relata que os policiais chegaram a discutir após o disparo que matou o garoto. Ele conta que havia cerca de seis viaturas no local, cada uma com cinco policiais. “Eles disseram ‘fica com a merda que vocês fizeram, a guarnição de vocês que vai responder’. Parecia que eles estavam revoltados com os policiais que entraram na casa. Logo depois eles pediram que todos afastassem e fossem para esquina da rua, a cerca de 70 metros do local, para fazer a retirada do corpo e dificultar o trabalho da perícia criminal. Nós queremos justiça!"

Ainda de acordo com Victor, os PMs levaram o corpo de Mizael para o hospital de Chorozinho. “Eles embalaram meu primo em um saco de lixo, levaram edredon, colcha de cama e travesseiro. E ainda tiraram a bala que também chegou a atingir o colchão”, relata. “Mizael era um garoto tranquilo, brincalhão, mas apenas com familiares, e tinha todo um sonho pela frente, era um adolescente que só estudava, tinha acabado de ganhar um cavalo de vaquejada do pai. Eu, como primo, tinha bastante apreço pelo jovem e tinha um carinho enorme, também aconselhava a morar com a gente na zona rural”, descreve Victor.

Por meio de nota, a Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social do Ceará (SSPDS) diz que Mizael Fernandes da Silva não possui antecedentes criminais. O esclarecimento foi feito após boatos de que a polícia teria agido contra ele por suspeita de envolvimento em crimes na região. A Polícia Civil do Estado do Ceará (PCCE) informa ainda que o inquérito policial que apura as circunstâncias da morte foi transferido para a Delegacia de Assuntos Internos (DAI) da Controladoria Geral de Disciplina dos Órgãos de Segurança Pública e Sistema Penitenciário (CGD).

Os policiais escreveram no relatório de ocorrência que Mizael supostamente estava com uma arma de fogo e não obedeceu à ordem de soltar o revólver, por isso eles realizaram disparos de fogo contra a vítima que teria sido socorrida ao hospital, mas não resistiu aos ferimentos.

A morte de Mizael gerou revolta e protesto de moradores da cidade, que chegaram a queimar pneus e troncos de madeira no km 70 da BR-116, causando bloqueio no tráfego por cerca de uma hora. Comerciantes também baixaram as porta em luto pelo garoto.

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