PM é acusada de não socorrer grávida baleada no Rio

A Polícia Militar não socorreu a adolescente Elenilda Justino da Silva, de 16 anos, baleada durante troca de tiros entre traficantes e PMs, no Morro Santo Amaro, na zona sul do Rio. Também não abriu caminho para a Kombi de um morador do morro que levou a jovem ao hospital. A denúncia foi feita pelos três homens que a socorreram, durante o enterro da adolescente, no Cemitério São João Batista, na zona sul do Rio.Grávida de oito meses, Elenilda foi atingida por uma bala perdida no peito e outra no ombro. Médicos do Hospital Souza Aguiar fizeram uma cesariana e salvaram o bebê. Leiliane, nome escolhido pela mãe, está em coma e respira com auxílio de aparelhos. O motorista de lotação Santino Pedro da Silva Filho, de 41 anos, contou que a polícia chegou ao morro às 16h11 de terça-feira, 25, horário em que ele telefonou para casa para alertar a família e pedir que não saísse. "Cinco minutos depois, minha mulher ligou, dizendo que nossa vizinha havia sido baleada a caminho da padaria. Subi o morro para socorrer a moça. Ainda bati boca com policiais, que não a socorreram. Um deles, com estrelinha no ombro (oficial), falava ao celular e virou as costas para mim. Pedi a uma patrulha para abrir caminho para a Kombi, mas ele também se recusou", contou Silva. Silva contou que no trajeto para o hospital a maior preocupação de Elenilda era com a filha. "Ela chorava e repetia: ´Vou perder minha filhinha, vou perder minha filhinha´. Só uma vez ela perguntou: ´Será que eu vou morrer?´. Tentei acalmá-la. Pedia que não dormisse. Às vezes, ela se queixava de dor". Elenilda foi atingida por dois tiros. Um atravessou o ombro esquerdo. O fatal entrou pela base do tórax, lesionou o fígado e saiu pelas costas. A jovem sofreu hemorragia interna, que provocou sua morte. VersõesO parecer dos peritos do Instituto Médico Legal contraria a versão da PM. Segundo nota divulgada pela corporação, a jovem havia sido atingida nas costas por tiros disparados por traficantes. O relações públicas da PM, tenente-coronel Aristeu Leonardo Tavares, informou que uma pistola ponto 40 usada por um policial foi recolhida. "Somente um policial deu cinco tiros e a arma está à disposição da perícia."Tavares disse que os policiais não socorreram a jovem porque não souberam que havia feridos no tiroteio. A PM estava no morro para verificar informações recebidas pelo serviço de inteligência do 2º Batalhão (Botafogo). UTI Leiliane nasceu com 49 centímetros e 3,44 quilos. Na manhã desta quarta, 26, foi transferida para a Maternidade Carmela Dutra, onde está internada na UTI neonatal em estado grave. "Tudo o que eu quero é Justiça", disse o marido de Elenilda, o auxiliar de cozinha Odair Batista de Oliveira, de 22 anos. "Estava tudo comprado para a menina. A gente fazia planos. Ela ia voltar a estudar e trabalhar para comprar nossa casa."Cearense, Oliveira disse que continuará a morar no Rio. "Fico por minha filha." A mãe de Elenilda, a doméstica Lucineide Justino da Silva, de 32 anos, quer processar o Estado. "A gente veio da Paraíba procurar uma vida melhor e só encontrou tristeza. Nunca ouvi tiroteio lá. Aqui é todo dia." Elenilda foi enterrada no fim da tarde de quarta, no Cemitério São João Batista, na zona sul.

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