PM é preso por suspeita de ligação com Vado

O programa de variedades Fantástico da TV Globo, levou ao ar neste domingo reportagem com gravações telefônicas que ligavam o traficante Valdir Ferreira, o Vado, a um esquema de corrupção com policiais do 3.º BPM (Batalhão da Polícia Militar) do Rio de Janeiro. Vado comandava o comércio de drogas na Favela do Jacarezinho, na zona norte da cidade, e foi morto há uma semana num confronto com PMs. O Estado obteve da assessoria do secretário de Segurança Pública do Estado do Rio, Roberto Aguiar, a informação de que um sargento do 3.º BPM está preso por causa das investigações preliminares dos "grampos telefônicos".Ele foi o pivô de uma polêmica envolvendo o cantor Belo, depois de a Polícia ter divulgado, duas semanas atrás, outras gravações que mostravam uma relação muito próxima entre os dois. A reportagem do Fantástico reproduziu trechos de conversas em que Vado negocia "propina" com um policial e também em que o ex-chefe do tráfico no Jacarezinho é alertado por outros traficantes sobre a presença de PMs no local. Vado fala ainda de "falsas apreensões" de drogas por policiais. Em 13 de agosto, policiais estavam na favela e procuravam traficantes para negociar. Vado então recebe um telefonema de um comparsa. - Pede pro Lulinha ir lá, tipo dar cem reais a eles, tá ligado. Tá ouvindo? E pra eles voltarem mais tarde, umas seis horas, assim pro Lulinha dar um bagulho pra eles apreenderem, entendeu? Preto e branco - diz Vado. Outra gravação, feita em 16 de agosto, deixa claro que policiais voltaram para buscar dinheiro: - Os caras estão zoando o morro todo, tá tudo espalhado. Aas bocas estão todas paradas - alerta outro suposto traficante. - Manda o Lulinha falar com eles que hoje tem idéia, o dinheiro deles lá - responde Vado. - Eles falaram que tá uma merreca e enquanto estiver uma merreca, não vão sair. - Manda o Lulinha falar com eles que mais tarde a gente dá o dinheiro deles - ordena Vado. O mais grave, no entanto, estaria reservado para o dia 18 de agosto, quando Vado trata diretamente com um policial o pagamento de "propina". Antes, pede que o intermediário dê seu número de telefone para o PM. - Fala Francisco! - cumprimenta Vado. - Quem é, Bebeto? Fala, Bebeto. É o comandante do mês. E aí? - responde o policial, chamando Vado pelo apelido de Bebeto. - Tranqüilidade. - Tá tranqüilo? - pergunta o PM. - Então, o que acontece? Daqui a pouco, quando começar a vender "as carnes" lá, legal, eu mando lá pra vocês o negócio - diz o traficante. - O Lulinha veio me dar uma idéia, falou que hoje você ia mandar um negócio até 3 horas. Pô, domingo passado você ficou de mandar uma mistura pra gente fazer uma apreensão, mas não veio a mistura - protesta o policial. (mistura, no caso, significa droga de má qualidade.) - Aí o Lulinha veio dar uma idéia, que ia mandar uma mistura e ia mandar cem reais pra gente tomar cerveja. Mas não dá pra mandar agora cedo, não? A gente faz logo a apreensão e fica tranqüilo - continua o PM. O Fantástico ouviu o comandante do 3.º BPM, tenente-coronel Paulo Augusto Mouzinho. Ele disse que a PM não admite desvio de conduta e que a corporação tem como norma punir qualquer policial envolvido em delitos. "Nós somos rigorosos." Acrescentou que esses casos de corrupção, se comprovados, resultam na exclusão do PM envolvido.

Agencia Estado,

25 de agosto de 2002 | 23h51

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