WILTON JUNIOR / ESTADAO
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PM fica nos quartéis, mortes mais que dobram e tropas federais vão para o ES

Famílias de policiais fazem protesto por reajuste salarial e sindicato fala em 64 mortes, ligadas ao crime organizado; Força Nacional e Exército estão nas ruas

Márcio Dolzan, O Estado de S. Paulo

06 Fevereiro 2017 | 22h08

O Espírito Santo registrou pelo menos 64 homicídios entre sábado e nesta segunda-feira, 6, após a paralisação do patrulhamento nas ruas, motivada pelos protestos de familiares de policiais militares, que cobram aumento salarial para a categoria. Os homicídios, mais que o dobro da média normal, envolveriam a disputa de espaço pelo crime organizado. O temor levou o comércio a fechar as portas, o início das aulas foi adiado, as ruas ficaram vazias e o governo do Espírito Santo pediu o apoio do governo federal. Tropas da Força Nacional e do Exército chegaram nesta segunda ao Estado.

Segundo o Sindicato dos Policiais Civis (Sindipol), a maior parte dos crimes ocorreu na Grande Vitória, sobretudo em Serra, Cariacica e Vila Velha. Em todo o primeiro semestre de 2016, no Estado, ocorreram 604 homicídios e a média foi de 25 casos por fim de semana. 

A Secretaria de Segurança Pública ainda não tinha, às 18 horas desta segunda, um balanço do total de ocorrências. Os números de homicídios foram levantados pelo sindicato dos delegados (Sindepes). 

Tráfico. Desde sexta-feira, familiares de policiais ocupam a entrada de batalhões da PM em mais de 30 cidades, o que impede a saída dos soldados para patrulhamento. Conforme o vice-presidente do Sindipol, Humberto Mileip, os mortos, em sua maioria, são traficantes. “A verdade é que grupos que dominam a venda de drogas na Grande Vitória estão aproveitando a falta de policiamento para ampliar os domínios”, disse. 

Conforme ele, os principais confrontos entre bandidos ocorreram em Central Carapina e Feu Rosa, na cidade de Serra. Todos os corpos foram levados para o Departamento de Medicina Legal de Vitória, que já encontra dificuldades para acondicionar os cadáveres.

Nas delegacias da capital, trabalhava-se com 12 homicídios no sábado e 37 no domingo. Foi elevado ainda o registro de tentativas de homicídio: 22 no sábado e 45 no domingo. O secretário de Segurança, André Garcia, admitiu apenas “aumento expressivo na criminalidade”.

Veja vídeos dos ataques: 

 

 

 

 

Reforço. “Há uma situação de gravidade (em Vitória)”, afirmou o ministro da Defesa, Raul Jungmann, em Natal, onde avaliava os resultados da Operação Potiguar 2, mobilização das Forças Armadas para conter a crise nos presídios. “Ainda hoje deveremos estar nas ruas da Grande Vitória cumprindo a determinação do presidente da República”, completou pela manhã. 

Questionado se esse recorrente emprego das tropas federais demonstrava a falência da segurança pública, o ministro negou. “O crime se nacionalizou. Nenhum governador pode ter o controle ou capacidade de resolver sozinho quando há uma crise.”

Michel Temer acompanhou a situação em Brasília “com preocupação”, após ver vídeos da população que denunciavam crimes e saques. No início da noite, vídeos foram encaminhados ao Planalto mostrando gritos e aplausos da população em comemoração à chegada das tropas federais às ruas de Vitória 

Houve o desembarque de 200 agentes da Força Nacional e de cerca de 1,2 mil militares das Forças Armadas, que já iniciaram o patrulhamento na região metropolitana. 

Justiça declara que movimento é ilegal

A Justiça do Espírito Santo declarou ilegal o movimento dos familiares dos policiais militares. O desembargador Robson Luiz Albanez alega que a proibição de saída dos quartéis caracteriza tentativa de greve. Uma multa de R$ 100 mil foi fixada para as associações, caso haja descumprimento da decisão. 

“O aquartelamento dos militares corresponde a uma ‘greve branca’, uma vez que representa a tentativa de busca de melhores condições salariais, daí a ilegalidade do movimento, haja vista a vedação expressa do exercício do direito de greve aos militares”, enfatizou a autoridade./ LEONARDO AUGUSTO, VINICIUS RANGEL e RICARDO ARAÚJO, ESPECIAIS PARA O ESTADO, e TÂNIA MONTEIRO

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