PM lê histórias para futuras mães

Parto foi o que inspirou busca acadêmica e voluntariado

Fernanda Aranda, SÃO PAULO, O Estadao de S.Paulo

22 Julho 2009 | 00h00

Durante a manhã, revólver, homicídio, sequestro e brigas fazem parte da rotina dele, capítulos que jamais poderiam estar nos livros infantis. À tarde, porém, princesas, castelos, heróis, cavalos brancos e aventuras ocupam ao menos quatro horas do dia desse homem. As tramas em nada combinam, mas a mistura fica mais clara quando o protagonista dessa história é apresentado: era uma vez um policial militar de São Paulo que tinha a missão de levar contos de fada para uma maternidade do extremo sul paulistano. Tudo começou quando as portas da fábrica se fecharam. Ser metalúrgico e ficar desempregado em Parelheiros, na periferia, levou David dos Santos, na época com 25 anos, a viver em uma espécie de deserto. A renda para sustentar a casa secava e nenhuma oportunidade florescia. Ele então avistou o "oásis" onde a violência, que sempre foi sua vizinha, não deixava nenhum morador do bairro enxergar. Prestou concurso e entrou para a Polícia Militar, profissão que aprendeu a transformar em segredo, já que nem sempre era seguro comentar o ofício. "Meus pais eram semianalfabetos, meus três irmãos nunca tiveram tempo para pensar em estudo. Eu achava bonito ser policial, mas meu sonho mesmo era ser professor. Este último eu não contava em alcançar", lembra David. Uma das vantagens de ser o mais novo PM do 27º Batalhão era o caminho curto entre a casa e o trabalho. "Sou filho de Parelheiros e sempre quis trabalhar para a minha terra", conta. Uma caminhada de 20 minutos separava a moradia do trabalho. Era o tempo que ele respirava fundo e se preparava para o que estava por vir. "Era um tempo em que a situação de violência estava ainda mais precária do que é hoje. Assassinatos, brigas, assaltos e tiros eram muito comuns e as principais ocorrências que eu atendia." UM CHAMADO ESPECIAL Foi num desses chamados, que apesar da gravidade já podiam até ser classificados como "comuns", que um click tocou na mente de David. O ano era 2003; o local, a Favela Jardim Lúcia, encravada no fim do Grajaú; e o motivo do deslocamento da polícia, uma briga violenta. "Quando chegamos lá, avisaram que uma mulher estava em trabalho de parto, dentro de um barraco de tão difícil acesso que nem a ambulância do Samu ou dos bombeiros conseguiria chegar até lá." David já era pai nessa época, mas trazer uma criança (foi uma menina bem cabeluda e com uns 3 quilos) ao mundo, assim com as próprias mãos, mexeu com a cabeça daquele policial. "Já tinha uma vontade de fazer trabalho voluntário, mas ficou mais forte depois daquele parto." Começou a fazer palestras sobre o perigos das drogas nas horas vagas, mas não era bem isso que almejava. Ele então decidiu uma reviravolta. Contrariou todos que batiam o pé de que faculdade era um local improvável para um PM de Parelheiros e prestou Letras. Nem acreditou quando viu seu nome na lista de aprovados. No ano passado, conseguiu bolsa de estudos de um programa estadual. Como contrapartida, teria de prestar serviços em uma maternidade pública, a de Interlagos, também na "terra natal", na zona sul. "Juntou a fome com a vontade de comer." "Aquele parto que eu fiz foi a coisa mais marcante da minha vida e agora eu era voluntário em uma maternidade." Eram para ser só duas horas, mas David cumpre mais: "O quanto dá, no limite para não atrapalhar na polícia e nem na faculdade." Acorda às 5 horas, chega na polícia às 6h, trabalha lá até as 15h. Das 15h30 às 19h fica no hospital Interlagos. Chega um pouquinho atrasado à faculdade, onde permanece até as 22h30. Dorme à 1h e começa tudo de novo. Todos os dias. Desde o início do ano. David assumiu a biblioteca do hospital e maternidade, leva livros para as pessoas internadas e lê contos de fadas para as futuras mamães que estão internadas na UTI. "Mostro a importância da leitura para pessoas que nunca nem souberam o que é ter um livro em mãos." As mulheres gostam mesmo de contos de fada, mas, tem vezes, que ele arrisca levar Machado de Assis e Graciliano Ramos (seus prediletos). David dos Santos, aos 37 anos, está perto de conseguir o primeiro diploma universitário de todas as gerações da sua família. Quer pesquisar mais sobre literatura barroca, a mais incompreendida, do seu ponta de vista. Ainda sonha em ser professor. Mais do que o movimento barroco, o que ele não entende mesmo é por que essa profissão causa tanta estranheza quando é apresentada assim, como um sonho.

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