PM mata dois homens em confronto com traficantes no Rio

Dois rapazes morreram e dois foram presos em confronto entre 70 homens da Polícia Militar e traficantes, na manhã de hoje, nos morros do Dendê e do Querosene, na Ilha do Governador, no Rio. Uma grande operação - que contou com equipes de quatro batalhões e com o apoio de um helicóptero e do novo dirigível da Secretaria de Segurança Pública - foi armada para invadir o Dendê, onde um cabo da PM havia sido morto na segunda-feira, em ação para recuperar três carros roubados no alto da favela. De acordo com o tenente-coronel Alcides Menezes, do 17º Batalhão de Polícia Militar, apesar do aparato montado, "foi uma operação de rotina, que acontece todos os dias na Ilha".Pelo menos 20 moradores do morro do Querosene, separado do Dendê apenas por uma rua, acusaram policiais do 17º Batalhão (Ilha do Governador) de ter espancado os dois presos e executado sumariamente os outros dois homens, que estariam desarmados, sem troca de tiros. Um deles, identificado apenas como Diógenes, era da Região dos Lagos e estava na favela para visitar a namorada, segundo moradores. Eles se assustaram quando viram a PM subir o morro e se esconderam embaixo de uma escada. ?Um deles tossiu e a polícia os fuzilou sem perguntar nada", contou o mecânico Rodrigo Alves Rocha. A versão foi confirmada pelo presidente da Associação de Moradores, Melquíades Martins, e repetida inúmeras vezes por diferentes pessoas no beco Dadá, onde ambos foram mortos.O tenente-coronel Menezes afirmou que os dois portavam um revólver calibre 38 e uma pistola. "É sempre assim, quando matam, dizem que é traficante", disse a dona de casa Maria Pereira. Os dois presos, identificados como Carlos Alberto e Michel, estariam portando maconha. Brinquedo perigosoA operação começou por volta das 5h, no morro do Dendê, mas o tiroteio mais intenso só aconteceu por volta das 10h, perto da base da favela. "Minha filha de 4 anos acordou chorando e ficou chorando até o fim do barulho. Escondi meus dois filhos, de 2 e 4 anos, embaixo de uma mesa, numa sala protegida por três paredes da rua. Moro aqui há muito tempo, mas não me acostumo com isso. Ninguém se acostuma", disse uma moradora que não quis se identificar.Em seguida, o alvo passou a ser o Querosene. No beco Dadá, no alto de uma escadaria, crianças pequenas brincavam com dezenas de cápsulas de fuzil, saldo do intenso tiroteio. P., menino de 12 anos, escreveu espontaneamente com as cápsulas "TC" (Terceiro Comando, facção que domina a favela) e posou para fotos ao lado de amigos, a maioria menores que ele. O Estado lhe perguntou por que escrevera a sigla. Ele sorriu e disse apenas "sei lá". M.P., de 14 anos, que estava ao seu lado, derrubou as cápsula, dispostas como num dominó. "Nada a ver ficar escrevendo nome de facção. Desmanchei logo", justificou. Ao ver a cena, o pintor de automóveis Marcelo Medeiros, de 21 anos, disse: "Tem de escrever PM, as cápsulas são das armas dos policiais".Por volta das 14h, outro incidente na região. O cinegrafista da TV Bandeirantes, Junior Alves, de 33 anos, que subia a favela Pixuma - próxima às outras duas - acompanhando um grupo de 10 policiais militares, ficou sob fogo cerrado de traficantes por cerca de 20 minutos, encurralado em um beco."Pensei que não vou ia desta. Achei que não fosse sobreviver. Até os PMs estavam apavorados", contou. Ele gravou toda a ação, mas que não conseguiu filmar os criminosos. "A gente só ouvia os tiros, que vinham de todos os lados, de cima e de baixo, mas não via ninguém. Essa era a principal razão para o nervosismo de todos." Alves relatou que o tenente que comandava a operação tentou contato para requisitar reforços mas demorou a conseguir, o que aumentou a agonia do grupo. Só com a chegada do Batalhão de Operações Especiais (Bope) e do Grupamento Especial Tático Móvel (Getam), os policiais conseguiram escapar do cerco.

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