PM tenta fazer ''virada cultural'' em Paraisópolis

Polícia busca confiança de moradores e dá atendimento odontológico; população, no entanto, se sente intimidada com o armamento pesado

Adriana Carranca e Naiana Oscar, O Estadao de S.Paulo

17 Fevereiro 2009 | 00h00

As crianças passam apressadas a caminho da escola. Já não prestam mais atenção nos policiais militares do Comando de Operações Especiais (COE), que há duas semanas cercaram a Favela de Paraisópolis, a segunda maior de São Paulo, com 80 mil habitantes. Desde então, cerca de 400 homens da PM, 20 cavalos, 100 viaturas e 1 helicóptero compõem a paisagem de vielas estreitas. Até poucos dias atrás, as revistas eram frequentes. Ontem, policiais monitoravam o movimento e tentavam ganhar a confiança dos moradores com atendimento odontológico em um posto da PM, na Praça Moacir Nicodemus. Passaram pela triagem 78 pessoas. Desde que estão ali, os PMs já fizeram até parto e procissão na favela. E falam em promover uma virada cultural. "Para mim, não mudou nada com a polícia aqui. Só que a gente fica mais assustada. Isso, sim", diz Maura dos Santos, de 37 anos, que acompanhava a filha de 10 na aula de artes em uma ONG. "Ela costumava ir sozinha, porque é perto, mas agora não tenho confiança. É muita arma", afirma Maura. ABORTOA onda de vandalismo, no dia 2, detonada pela morte de Marcio Purcino e a prisão de Antonio Galdino de Oliveira, cunhado de Francisco Antonio Cesário da Silva, o Piauí, um dos líderes do PCC, deixou marcas que alguns moradores não vão esquecer. Quando viu a confusão, Maria Cícera colocou as mãos sobre a barriga de cinco meses, tentando acalmar o bebê e passou a rezar para que a gravidez, de risco, chegasse até o fim. O sonho da babá de 27 anos é ser mãe. De um menino. Talvez conseguisse se as imagens daquela segunda-feira não tivessem feito o coração acelerar. "Veio uma falta de ar, fiquei tonta e senti as contrações", lembra. Maria Cícera abortou. Foi levada às pressas para o hospital e lá descobriu que perdera um menino. Duas semanas depois, ela está sem trabalhar, sendo cuidada pela mãe. "Só quero que tudo volte ao normal." Em visita à comunidade, no sábado, o secretário de Segurança Pública, Ronaldo Marzagão, prometeu fazer mais: "Paraisópolis voltará a ser um paraíso." No que compete à sua pasta, no entanto, os resultados da Operação Saturação são pífios se comparados a 2008, quando a favela bateu recorde de apreensões - 8,5 toneladas de maconha apreendidas em um único dia pela 6ª Companhia do 16º Batalhão. Desde o dia 2, a polícia fez 10.642 revistas e encontrou 3,4 quilos de maconha, 337 gramas de cocaína, 1,3 kg de crack e 4 armas.

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