PM vai coibir bailes funk ilegais em favelas do Rio

Medida foi tomada após tiroteio na zona norte; moradores protestam

Pedro Dantas, O Estadao de S.Paulo

14 Julho 2009 | 00h00

A Polícia Militar do Rio anunciou que vai coibir a realização de bailes funk ilegais nas favelas da cidade. A decisão foi tomada depois que policiais foram recebidos a tiros, no sábado, quando verificavam denúncias sobre um baile com traficantes no Morro dos Macacos, em Vila Isabel (zona norte). Três pessoas morreram, entre elas uma mulher, vítima de bala perdida, e seis ficaram feridas. O funk está proibido nas favelas ocupadas pelas Unidades de Polícia Pacificadora (UPP). A censura é criticada por moradores, pesquisadores e entidades de direitos humanos. "A Polícia Militar não tem discriminação ou preconceito contra qualquer tipo de música ou manifestação cultural. O trabalho da corporação é garantir a preservação da ordem pública", disse ontem o coronel Marcus Jardim, comandante do 1º Comando de Policiamento da área. Segundo ele, a intenção da polícia é coibir o tráfico de drogas e, consequentemente, o faturamento dos criminosos com esses eventos. Os moradores dos morros ocupados pela UPP discordam do coronel. "Não aceitaremos isso. Vivemos em uma sociedade democrática. Vamos buscar o diálogo com os comandantes do batalhão e da UPP para revogar essa censura contra uma manifestação popular", disse Emerson Claudio Nascimento dos Santos, de 30 anos, o MC Fiel, do Morro Dona Marta, em Botafogo (zona sul). Ele é organizador dos eventos Roda de Funk e Pagorap, que não são bailes, mas também estão proibidos pela polícia. Na Cidade de Deus, o presidente da Associação de Moradores, Alexandre do Rego Lima, também reivindica a volta do evento. A antropóloga e historiadora da Universidade Federal Fluminense Adriana Facina diz que a proibição do funk reproduz a perseguição no passado aos ritmos dos negros. "O funk é apreciado pela mesma população negra, pobre e favelada cujos antepassados fugiam da polícia nas rodas de samba e de capoeira. A agravante é que vivemos em um estado democrático. Creio que o problema não é a música, mas quem a consome e a produz. As boates da zona sul tocam funk e têm episódios esporádicos de violência, mas não serão fechadas", concluiu. A lei que a polícia quer cumprir é a 5.625, de 2008, do ex-chefe de polícia e deputado cassado Álvaro Lins, que regula a realização de bailes funk e raves. A longa lista de exigências praticamente inviabiliza eventos em comunidades carentes. Entre outros itens, a lei exige banheiro químico para cada 50 pessoas, câmeras, contrato com empresa de segurança autorizada pela Polícia Federal, detectores de metal e atendimento médico de emergência.

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