PM vai formar mais negociadores

Restrito a oficiais, curso para capacitar especialistas em seqüestro é estendido a cabos, soldados e sargentos

Luísa Alcalde, JORNAL DA TARDE, O Estadao de S.Paulo

22 de setembro de 2008 | 00h00

A Polícia Militar vai aumentar o contingente de especialistas em negociações com reféns. Hoje, apenas oficiais são formados pelo Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate), a tropa de elite da PM paulista responsável pela coordenação da reciclagem. No segundo semestre de 2009, o curso de negociação será oferecido também a soldados, cabos e sargentos. A PM resolveu especializar a tropa depois de analisar posturas inadequadas de policiais, que não foram preparados para isso, mas são os primeiros a chegar ao local do crime por estarem nas ruas ."Isso compromete a ocorrência", diz o capitão Adriano Giovaninni, de 37 anos, comandante do Gate. Segundo ele, já houve casos em que PMs, por falta de conhecimento técnico, concordaram em dar colete para o criminoso ou disseram que iriam ver se poderiam fornecer um carro. "Deixaram uma possibilidade de atendimento. São itens que o Gate não negocia. Isso não se promete. Queremos eliminar esses vícios." FORMAÇÃO ESPONTÂNEAApesar de o curso não ser obrigatório, há lista de espera de soldados interessados. Segundo o capitão, também há muitos pedidos de batalhões do interior e da capital solicitando treinamentos extras na área de negociação. "Vira e mexe, o Gate vai ao interior para dar palestras, aulas, treinamentos ou simulações", afirma Giovaninni. A demanda cresce paralelamente ao aumento de registros de ocorrências desse tipo. Em todo o Estado, foram registrados 24 casos em 2006 e 33, em 2007 - um crescimento de 37,5% em 12 meses. Em 2008, já são 23 casos até este mês. O levantamento foi feito pela reportagem.Atualmente, o curso dura três semanas. Para treinar um efetivo maior, o Gate pretende aumentar o número de cursos e diminuir a duração, que pode ter de uma semana a três dias. Desde que foi criado, em 2001, apenas 167 policiais se formaram negociadores. Os oficiais capacitados nesses treinamentos se encarregam de ministrar aulas sobre o tema. Funcionam como multiplicadores porque eles têm a função de treinar cotidianamente os efetivos. Durante o patrulhamento ostensivo, toda ocorrência cuja complexidade fuja aos padrões habituais, como são os casos com tomada de reféns, é obrigatória a presença de um oficial no local.O desfecho do mais longo seqüestro com tomada de refém do Estado, que durou 56 horas, ocorrido em abril do ano passado, em Campinas, levou o governador José Serra (PSDB) a prestar homenagem ao Gate, em 2007. "Precisamos ter gente treinada, equilibrada e preparada para essas emergências", elogiou o governador. Na época, o Secretário da Segurança Pública, Ronaldo Bretas Marzagão, chegou a anunciar que o Gate receberia, em 2007, investimentos da ordem de R$ 2 milhões.No dia 24 de abril daquele ano, o assaltante Gleison Flávio de Sales, de 23 anos, invadiu a casa de Mara Silvia de Souza, na periferia de Campinas, e a manteve refém com dois filhos, Thiago, de 10 anos, e Victor, de 7. Sales fugia da polícia, que o perseguia por ter roubado um videogame numa galeria na região. Gleison entrou na casa armado com uma pistola semi-automática e manteve a família refém num corredor. Pelo menos 40 policiais civis e militares cercaram a casa e interditaram a rua. Três policiais especializados negociaram com o bandido a libertação dos reféns. Um deles era o capitão Adriano Giovaninni, comandante do Gate. "Foi desgastante", lembra. A comunicação estava difícil porque o causador da crise permanecia a maior parte do tempo em silêncio.Depois de libertar o menino mais velho, o criminoso atirou contra a porta. Essa foi a senha para o Gate invadir a casa, render o bandido e por fim ao longo drama da família.

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