PMDB busca acordo para controlar traições

Atingido por rebeliões nos Estados, partido tenta conter dissidentes que negam apoio à[br]chapa presidencial de Dilma com Temer na vice

Christiane Samarco, O Estado de S.Paulo

08 de junho de 2010 | 00h00

BRASÍLIA

O fim da regra da verticalização, que obrigava os partidos a reproduzir o modelo da aliança nacional em todo o País, minou a força das direções partidárias, que não conseguem impor a fidelidade aos Estados.

Diante das dificuldades para fechar o apoio dos diretórios estaduais à chapa presidencial, os partidos tentam driblar a falta de comando criando um regulamento para as traições.

Que o diga o PMDB do deputado Michel Temer (SP). O partido não é o único que amarga rebeliões em regionais que disputam o poder local com o PT da presidenciável Dilma Rousseff. Também há problemas no PDT, PP e PTB. Mas, na condição de maior partido da base governista com estrutura em todo o Brasil, o PMDB saiu na frente. É o primeiro a deflagrar uma operação política para conter dissidentes que recusam apoio à chapa presidencial encabeçada pela petista, mesmo com Temer no posto de vice.

"Iniciei um trabalho de consulta aos diretórios estaduais para saber da possibilidade de promovermos uma convenção nacional, no dia 12, em que todos compareçam", diz o deputado Eliseu Padilha, representante de uma regional problema: o PMDB do Rio Grande do Sul, que vive às turras com o PT e não quer ouvir falar da candidatura Dilma.

Ao final do levantamento, ele levará a Temer as alternativas sugeridas por cada Estado para contornar o problema. Nas conversas preliminares, o presidente do PMDB já avisou aos líderes regionais que respeitará todas as decisões estaduais. Fez apenas um apelo: que não façam propaganda nos espaços institucionais do partido contra Dilma e o vice que preside o partido.

Como o objetivo maior é reduzir o impacto das traições, o alvo da operação é o palanque eletrônico. Em resumo, trair nos comícios, pode; no programa eleitoral no rádio e na TV, não pode.

É essa a maior preocupação do governo e de partidos aliados bem menores do que o PMDB. A direção do PP ainda não tratou do assunto, mas como o partido também é da base governista, os pepistas simpatizantes do PSDB já se movimentam em defesa da liberdade total aos Estado.

É o caso do deputado Ricardo Barros (PP-PR), que já está em campanha como candidato a senador na chapa tucana ao governo do Paraná, encabeçada por Beto Richa. "Vou aguardar a decisão do diretório nacional, mas gostaria que a direção permitisse o trabalho do partido, em cada Estado, alinhado com seu candidato a governador", diz Barros.

O deputado argumenta que isto facilitará a vida do PP, já que a principal meta do partido é aumentar o número de deputados e senadores. Mas não esconde que gostaria de ter sinal verde para pedir votos a Serra na TV.

Até o PDT do ministro do Trabalho, Carlos Lupi, primeira legenda da base governista a declarar apoio à candidatura de Dilma Rousseff, quer criar regras para infiéis. Quando anunciou a parceria com o PT em torno de Dilma, Lupi prometeu fechar o apoio das regionais à petista. No caso do Maranhão, não deu.

Em meio à guerra com o grupo da governadora Roseana Sarney (PMDB), que conseguiu atrair setores do PT para o governo e para a base de apoio à sua reeleição, o candidato a governador pelo PDT, Jackson Lago, não quer mais saber de Dilma Rousseff.

"Mas este é nosso único problema", destaca o líder do PDT na Câmara, Dagoberto Nogueira (MS), certo de que, à exceção do PT, o PDT é o partido "mais coeso em torno da candidatura Dilma". Jackson Lago está liberado para compor o palanque local com os tucanos e até para fazer campanha em favor do candidato do PSDB a presidente, José Serra. Mas a direção do PDT impõe uma condição: que no programa de TV ele não pedirá voto para nenhum candidato.

Em tese, isso também está sendo acertado com as regionais do PMDB. No Rio Grande do Sul, os dirigentes argumentam que o voto gaúcho não é a favor de Serra, é contra o PT, que faz questão de hostilizar o PMDB.

Mesmo assim, a tendência dos gaúchos é acatar o regulamento proposto por Temer. Devem adotar neutralidade no palanque eletrônico, embora a aposta geral seja de que a "maioria absoluta" dos peemedebistas trabalhará para eleger Serra.

Algumas regionais do PMDB, no entanto, recusam-se a aceitar novas regras para dissidentes. Em Mato Grosso do Sul, o candidato a governador André Puccinelli não concorda porque a aliança foi fechada com o PSDB. A senadora Marisa Serrano (PSDB-MS) estabeleceu condições para não se lançar na corrida estadual e garantir o apoio a Puccinelli. Um dos itens estabelece que o programa de TV do candidato a governador deve promover José Serra.

Em Pernambuco, o comando do partido é do senador Jarbas Vasconcelos, que se lançou candidato a governador ao lado de Serra. No Acre, Flaviano Mello (PMDB) também não aceita o regulamento.

Na Bahia, o ex-ministro e deputado Geddel Vieira Lima disputa com o governador Jaques Wagner (PT) e exige tratamento igualitário do governo. Se o presidente Lula pedir voto para reeleger o governador e não fizer o mesmo por ele, Serra poderá ter dois palanques no Estado: o do PMDB e o do DEM, do ex-governador Paulo Souto, que entrou na corrida estadual coligado ao PSDB.

No Pará, onde o deputado Jader Barbalho rompeu com a governadora Ana Júlia (PT), o PSDB tem conversado com Jader e lançou o ex-governador Simão Jatene à sucessão.

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