PMDB reage ao ex-ministro e fala em divisão de poder

'Dilma, se eleita, exercerá certamente uma relação mais próxima não só com o PT, mas também com o PMDB e os aliados', diz Alves

Eugênia Lopes , João Domingos / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

16 de setembro de 2010 | 00h00

Numa reação imediata à pregação de José Dirceu de que, se eleita, Dilma Rousseff dará ao PT mais poder do que o partido tem com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o líder do PMDB na Câmara, Henrique Eduardo Alves (RN), lembrou ao deputado cassado pelo escândalo do mensalão que o eventual governo da ex-ministra não terá a exclusividade dos petistas. Será dividido com o PMDB e com todos os partidos da aliança de Dilma.

"Dilma, se eleita, exercerá certamente uma relação mais próxima não só com o PT, mas também com o PMDB e todos partidos aliados que a ajudaram a se eleger", contra-atacou Alves. Por força dos acertos com as legendas coligadas, Dilma será obrigada a ter uma convivência mais estreita com os partidos aliados, lembrou o deputado.

A cobrança do líder do PMDB, figura fundamental na costura da aliança com Dilma, ocorreu porque, na segunda-feira, Dirceu disse, num encontro com petroleiros petistas em Salvador, que a eleição de Dilma é mais importante para o projeto político do PT porque ela representa o partido. Lula, na opinião, é duas vezes maior do que o próprio PT.

Assim, ofuscaria o partido, coisa que Dilma não fará, porque, segundo ele, "não era uma liderança de grande expressão".

As declarações de Dirceu pegaram de surpresa também os petistas. O secretário de Comunicação do PT, deputado André Vargas (PR), cobrou silêncio de Dirceu. "O aconselhável é que todos nós, eu, qualquer dirigente do PT, o José Dirceu, falemos pouco, falemos menos ou não falemos de jeito nenhum. Se queremos ajudar a campanha, todos nós temos de falar o mínimo possível", disse Vargas. Quem fala pela campanha nacional é o presidente do partido, José Eduardo Dutra, reafirmou Vargas. "Nosso porta-voz é o Dutra. Não é o José Dirceu."

O líder do governo na Câmara, Cândido Vaccarezza (PT-SP), atribuiu as declarações do ex-ministro a um "arroubo de linguagem". "Isso deve ter sido uma figura de linguagem. Para querer estimular a militância, ele usou um pleonasmo (repetição de um mesmo termo) para criar uma situação. Acho que nem ele (Dirceu) concorda com ele", afirmou Vaccarezza. Para o líder, o PT já desfruta de "muito poder" com Lula na Presidência. "O Lula é o PT", disse.

Na avaliação de lideranças de oposição, as declarações de José Dirceu refletem a verdade política do momento. "O PT está esperando ter um controle maior do Estado, caso Dilma seja eleita. O Lula tem uma autonomia maior porque ele é maior que o PT", argumentou o deputado Arnaldo Madeira (PSDB-SP).

O deputado Antonio Carlos Magalhães Neto (DEM-BA) é outro que concorda com as declarações de Dirceu. "O Lula é mesmo maior que o PT. Ele não se vê obrigado a ceder às pressões do PT, principalmente da ala radical e dos mensaleiros."

"Vale-tudo". Sob críticas, o ex-ministro procurou justificar os argumentos usados na reunião com os petroleiros no blog que tem na internet. Com o título "O vale tudo", Dirceu afirmou que suas declarações foram "completamente deturpadas e tiradas de contexto". "Eu disse que a eleição de Dilma representa um esforço coletivo ainda maior do que a do presidente Lula."

O QUE DISSE JOSÉ DIRCEU

"A eleição da Dilma é mais importante do que a eleição do Lula, porque é a eleição do projeto político. Ela nos representa. A Dilma não era uma liderança que tinha grande expressão popular, eleitoral, uma raiz histórica no país, como o Lula foi criando, como outros tiveram, como o Brizola, o Arraes e tantos outros. A direita teve aqui mesmo uma liderança que foi o ACM, independente do fisiologismo, do abuso de poder, contudo era uma liderança popular, tanto é que era popular na Bahia. Então, ela é a expressão do projeto político, da liderança do Lula e do nosso acúmulo desses 30 anos, porque nós demos continuidade ao movimento social. Se nós queremos aprofundar as mudanças, temos que cuidar do partido, dos movimentos sociais, da organização popular. Temos que nos transformar em maioria. Não somos maioria no país, nós temos uma maioria para eleger o presidente até porque fazemos uma aliança ampla."

"Nós somos um partido e uma candidatura que coloca em risco o que eles tão batendo, todos articulistas da Globo escrevem e falam na TV, todos os analistas deles: a noção das garantias individuais e da Constituição, que nós queremos censurar a imprensa, que o problema no Brasil é a liberdade de imprensa? Gente do céu. Como alguém pode afirmar do Brasil é(...). Não existe excesso de liberdade. Pra quem já viveu em ditadura(...) Dizem que nós queremos censurar a imprensa. Diz que o problema é a liberdade de imprensa. O problema do Brasil é excesso, bom, é que não existe excesso de liberdade, mas o abuso do poder de informar, o monopólio e a negação do direito de resposta e do direito da imagem. A Constituição não colocou o direito de resposta e de imagem, a honra, abaixo ou acima da proibição da censura e da censura prévia, corretamente, ou do direito de informação e da liberdade de imprensa, de expressão. São todas cláusulas pétreas."

"A mídia agora já começa a discutir a nossa política, se vai fazer ajuste, se não vai; se vai estatizar ou não vai; se vai fazer concessão ou não vai.

E começa a discutir se o PT está sendo desprestigiado ou não. Aquilo que nós temos de maior qualidade, que é o Lula, eles querem apresentar como negativo, porque o Lula é maior que o PT. Eles é que não têm ninguém maior que o partido deles. Ainda bem que nós temos o Lula, que é duas vezes maior que o PT.

O PT teve 17% de voto em 2002/2006 para a Câmara, que calcula a força de um partido no mundo todo. Não é o voto majoritário. Vai ter agora 21%, 23%, eu espero, tudo indica. Tem que ter 33% em 2014.

É lógico que o PT é um grande partido, tem força político-eleitoral, social. Nós já temos um acúmulo de políticas públicas, de experiência. Então, nós temos que consolidar as nossas organizações populares."

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