PMDB vale mais após crise

O primeiro ato de independência da presidente Dilma Rousseff em relação ao PT, com a nomeação de uma ministra de fora do quadro paulista do partido, a aproxima do desenho que seu antecessor estabeleceu para administrar sua heterogênea base de sustentação.

João Bosco Rabello, O Estado de S.Paulo

12 de junho de 2011 | 00h00

Tal como Lula, embora mais destrambelhada, a presidente marcou território e transmitiu a determinação de não se submeter plenamente às imposições do seu partido, cujo núcleo paulista, de forma quase autista, vive uma guerra autofágica de efeito asfixiante para o governo.

Não se deve, por isso, ver nas mudanças de sexta-feira uma ação de afirmação ante o ex-presidente Lula, senão como efeito colateral. O ministério foi modificado antes do que previra o ex-presidente, mas por circunstâncias inesperadas.

Dilma vive com o PT as mesmas dificuldades do antecessor, que exercia liderança indiscutível sobre o partido e lhe impunha limites com mais facilidade. Dessa vez foi preciso um "tranco" para recolocar a relação nos termos do governo anterior.

Quem sai ganhando é o PMDB, unido pelo ataque ao vice-presidente Michel Temer, desferido no auge da tensão de Dilma com sua base, durante a votação do Código Florestal. Maior em número, porém dividido, o PT fica menor na aliança e reforça o papel estabilizador do rival, tornando-o mais indispensável à presidente.

Com Palocci foi-se a virgindade do ministério da continuidade. Removida a peça que melhor o simbolizava, está aberto o caminho para mais mudanças. Dilma experimenta o gosto da autonomia e assume o desafio de fazer política.

O risco

Não se faz política sem vítimas e sem riscos. A demissão de Palocci e o revés das lideranças petistas na Câmara preenchem a primeira parte da sentença à qual recorria sempre o ex-presidente Tancredo Neves. O risco de Dilma agora atende pelo nome de Ideli Salvatti (PT-SC). O susto de sua nomeação provocou reações entre aliados e oposicionistas. "É como apagar fogo com gasolina", disparou um peemedebista, refletindo um temor generalizado com o perfil agressivo da ex-líder do governo Lula no Senado. Naquela função, era uma espécie de coronel do Bope; nesta, uma negociadora. De sua capacidade de migrar de uma personagem para outra - improvável para a maioria - depende o êxito do movimento feito pela presidente.

"Mais Juízo"!

Sem Palocci e com Luiz Sérgio (RJ) no ministério da Pesca, a corrente majoritária do PT - Construindo um Novo Brasil, de Lula e José Dirceu - perdeu espaço na Esplanada. Preocupado com as brigas, que favorecem o PMDB, o deputado André Vargas (PR), fez um apelo geral à turma no Twitter: "Mais juízo, minha gente". Reconciliação

A presidente Dilma Rousseff faz na próxima sexta-feira, em Ribeirão Preto (SP), o primeiro gesto pela reconciliação com o PMDB, após a crise com Michel Temer. Ela deve ir ao lançamento do Plano Safra 2011/2012 , ao lado do vice-presidente e do ministro da Agricultura, Wagner Rossi, a quem Palocci ameaçou demitir após a derrota na votação do Código Florestal.

Prova de fogo

A escolha do novo líder do governo no Congresso, disputa que se arrasta há cinco meses, será o primeiro teste de Ideli Salvatti como negociadora. O PMDB do Senado quer o ex-governador do Amazonas Eduardo Braga e o PT defende José Pimentel (CE), que perdeu a vice-presidência do Senado para Marta Suplicy (SP). O impasse ameaça a votação da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), que regimentalmente deve ocorrer até 14 de julho.

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