PMDB vira fator moderador

O episódio do registro do programa do PT reacende a discussão sobre o controle da corrente radical do partido, hoje submetida à liderança e popularidade do presidente Lula. Começa a ganhar forma a tese de que, em um eventual governo Dilma, o poder moderador hoje exercido pelo presidente será transferido naturalmente para o PMDB, cuja presença no governo o fará ir além dos ministérios que historicamente ocupa por força de sua representação parlamentar.

João Bosco Rabello, O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2010 | 00h00

O esforço da candidata em tratar com a naturalidade de Lula as teses intervencionistas do partido não surte o mesmo efeito por lhe faltar a necessária liderança dentro do PT, o que impôs uma mobilização antecipada do PMDB para neutralizar as desconfianças produzidas pelo episódio, extensivas ao campo da economia. No governo, Dilma representou os chamados desenvolvimentistas, que rivalizaram com a ortodoxia do Banco Central. O deputado Michel Temer apagou o incêndio pela exclusão do PMDB desse processo e tem sido o fiador, junto a empresários, do papel estabilizador do partido, uma vez dentro do Executivo.

A diferença é que o poder moderador hoje exercido pelo presidente Lula, de dentro para fora do PT, seria exercido de fora para dentro por um partido, o PMDB, que se caracteriza como um consórcio de interesses regionais cuja ideologia é a ocupação de espaços. Num cenário ameno, a "feira ideológica" do PT (conforme definição de Lula) daria lugar ao pragmatismo das tropas de ocupação peemedebistas.

Na vida real as diferenças projetam uma aliança de muitas incógnitas, entre as quais o papel de Lula fora do governo.

Mais rápido, srs. ministros

O presidente do PMDB, deputado Michel Temer, quer agir informalmente junto aos ministros do Supremo Tribunal Federal em favor da urgência de uma decisão de mérito sobre a Lei da Ficha Limpa. Ele teme que a consolidação de candidaturas sub judice, ou seja, que concorrem sob força de liminares, crie uma instabilidade durante e depois das eleições. Na fase de campanha, a incerteza ameaça alianças e o patrocínio dos candidatos; depois, enfraquece o exercício do poder pelos eleitos. A questão mais dúbia hoje é a elegibilidade dos que renunciaram aos mandatos para evitar a cassação, casos de Jáder Barbalho e Paulo Rocha, no Pará; e Roriz, em Brasília, entre outros.

No vácuo da campanha

A campanha eleitoral encobre ações intervencionistas de governo que mobilizam empresários, artistas e publicitários. Eles estão preocupados com as reformas dos direitos autorais, que socializam os ganhos do autor, e com a usurpação, pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) de prerrogativas legislativas, o que levou à intervenção na propaganda da alimentação infantil.

Mal nos palanques...

Preocupados com seu desempenho nos palanques de Brasília e Rio, na última semana, aliados de Dilma Rousseff detectam que teve início a inevitável comparação da criatura com o criador. "É um crime querer comparar a Dilma com o Lula. Ela não é o Lula, não exijam isso dela", disse o prefeito de Joinville, Carlito Merss (PT). O presidente do PT, José Eduardo Dutra, diz que o problema não é de Dilma: qualquer outro candidato escolhido pelo partido se defrontaria com o carisma de Lula, diz ele. Os discursos da candidata foram considerados frios e sem poder de empolgar a militância.

...bem nos bastidores

Já no jantar que reuniu mais de 300 parlamentares, Dilma mereceu avaliação positiva no quesito "trato social". "Ela aprendeu a falar o "deputadês", resumiu um dos líderes da base aliada, dizendo que ela soube abordar em seu discurso exatamente o que os deputados queriam ouvir.

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