PMs acusados de matar seqüestrador são julgados no Rio

Os três policiais militares acusados de matar o seqüestrador do ônibus 174, Sandro do Nascimento, dentro de um carro da PM, em junho de 2000, disseram hoje durante julgamento que não tiveram intenção de asfixiá-lo e insinuaram que o bandido provocou a própria morte. Eles contaram que Nascimento estava extremamente agitado e, por isso, precisaram imobilizá-lo apertando sua cabeça e segurando seus braços e pernas. Ele teria mordido o braço de um PM e tentado tirar a arma da cintura de outro PM. A sessão deverá se estender até a manhã de quarta-feira.No início da noite de 12 de junho de 2000, com o desfecho do seqüestro do ônibus e a morte da refém Geisa Firmo Gonçalves, de 20 anos - que levou três tiros disparados por Nascimento depois que o soldado Marcelo Oliveira dos Santos atirou contra ele -, o capitão Ricardo de Souza Soares e os soldados Flávio do Val Dias e Márcio de Araújo David, todos do Batalhão de Operações Especiais (Bope), tiraram o bandido do cenário do crime num carro da PM. O objetivo era evitar que ele fosse linchado pela população revoltada e fosse medicado num hospital, segundo a polícia. Nascimento manteve dez passageiros reféns por mais de quatro horas.Hoje, os militares afirmaram que Soares manteve a cabeça de Nascimento sob o braço e com a mão empurrou seu queixo, já que ele tentava mordê-lo. "Ele dizia que tinha aids, que estava possuído pelo diabo. Estava completamente ensandecido e tentava me agredir", disse Soares à juíza Maria Angélica Guimarães Guerra Guedes, do IV Tribunal do Júri. O soldado David segurou os braços e Dias, as pernas.Conforme os depoimentos, o seqüestrador, mesmo dominado, conseguiu quebrar o vidro traseiro do veículo com os pés e ainda tentou pegar a arma do soldado Dias. Os policiais perceberam que Nascimento perdera os sentidos no meio do caminho para o hospital. Durante todo o trajeto, eles não fizeram contato com seus superiores. Alegaram que não tinham celulares nem comunicação por rádio.Foi o capitão Soares quem ordenou que o carro seguisse para o Hospital Souza Aguiar, no centro, e não para o Miguel Couto, no Leblon, mais perto do Jardim Botânico, onde o ônibus foi seqüestrado, por acreditar, segundo o depoimento, que no Miguel Couto haveria populares querendo linchar Nascimento. Depois de quinze minutos no hospital, o PM foi informado pelos médicos que Nascimento estava morto. O laudo do Instituto Médico-Legal (IML) constatou que a causa da morte foi asfixia por constrição de pescoço.O júri popular é formado por quatro mulheres e três homens. A sentença deverá ser proferida amanhã de manhã cedo, segundo previsão da defesa. A seção foi transferida do 4º Tribunal do Júri para o 1º, que é maior, por causa da grande procura de estudantes de direito e jornalistas. No entanto, até as 15 horas, apenas 50 pessoas assistiam ao julgamento. Se condenados, os acusados podem pegar de 12 a 30 anos de prisão.Os parentes dos réus acompanharam o julgamento apreensivos, porém esperançosos. "Eles fizeram o melhor que puderam", acredita a dona de casa Kátia Cilene Soares, de 32 anos, mulher do capitão Soares, que levou os três filhos. "Estou rezando. Deus sabe quem é que agiu corretamente", disse a servente do colégio Eunice Araújo David, de 55 anos, mãe do soldado David.Durante o julgamento, foram exibidas imagens de reportagens de TV sobre o crime, além do documentário "Ônibus 174", do cineasta José Padilha. O advogado de defesa, Clóvis Sahione, que dispensou o depoimento das duas testemunhas presentes, disse que é a primeira vez que se dá um "julgamento-verdade". "Não há mentiras, já que as cenas foram filmadas." Já a promotoria não abriu mão das três testemunhas de acusação.Clóvis Sahione comentou o fato de a data do julgamento cair no Dia Internacional dos Direitos Humanos. "Direitos humanos de que lado? Da minoria, que assalta, seqüestra, estupra, violenta, entra na nossa casa e arranca nossa garganta e nós não podemos dizer nada? Hoje é o dia do nosso direito."

Agencia Estado,

10 de dezembro de 2002 | 18h50

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.