PMs erraram ao atirar, diz Bope

Em curso de reciclagem, major afirma que não deve haver disparos contra carro sem identificação de ocupantes

Talita Figueiredo e Márcia Vieira, O Estadao de S.Paulo

17 de julho de 2008 | 00h00

A instrução é clara: o policial militar não deve atirar em um carro durante uma abordagem ou perseguição policial se ele não conseguir identificar quem está dentro do veículo. A afirmação é do chefe de instrução do Batalhão de Operações Especiais (Bope), major Fábio Souza, responsável pelo curso de reciclagem que começou a ser ministrado para todos os PMs lotados em batalhões da capital fluminense e que trabalham nas ruas. Ontem, 22 homens do 3º Batalhão da Polícia Militar (BPM), no Méier (zona norte), participaram do curso que dura apenas três horas. "É protocolo: você não deve atirar naquele carro. E se tiver uma pessoa seqüestrada dentro dele? Mesmo que a pessoa atire contra você (não deve haver revide). Ou você se abriga ou pára a perseguição e pede reforço pelo rádio. Você atira quando está vendo efetivamente (o alvo), ou seja, o marginal que está atirando em você. Aí você atira", enfatizou o major. A afirmação constrangeu o relações-públicas da PM, tenente-coronel Rogério Leitão. A imprensa teve autorização para acompanhar o curso ontem.Leitão tentou argumentar que o caso do administrador de empresas Luiz Carlos Soares da Costa, de 35 anos, morto na noite de segunda-feira com três tiros disparados por PMs, era diferente, por ser legítima defesa. Costa havia sido feito refém por um assaltante que roubou seu Siena. O carro foi perseguido por três cabos e um soldado do 22º BPM. Segundo os PMs, o assaltante disparou contra eles, que revidaram, atingindo Costa.Anteontem, o secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, defendeu a ação dos quatro policiais no caso do administrador. Depois das declarações, o major Fábio foi impedido de continuar conversando com a imprensa. O curso é dividido em três tópicos, um por hora. Primeiro, os policiais militares revisam as instruções sobre o "uso seletivo da força", que vai desde o uso da autoridade policial até o uso de uma arma letal. De acordo com o major, o uso da arma só é permitido quando "se fecha um triângulo". "É necessário que o opositor tenha uma arma, que ele tenha a oportunidade de usá-la e que ele possa agir contra o policial ou uma terceira pessoa." Ontem, o relações-públicas da PM anunciou que pedirá à Polícia Militar de São Paulo que disponibilize um vídeo usado pela corporação que mostraria o efeito de cada calibre de arma. "É um vídeo que queremos mostrar nos batalhões", afirmou. Leitão disse ainda que uma equipe da cúpula da corporação está revisando os manuais e vídeos de instrução usados pela PM. O material será reeditado e distribuído nos batalhões. MANIFESTOOntem, cerca de 50 pessoas se reuniram na sede da OAB-RJ para lançar um manifesto contra a política de segurança do governador Sérgio Cabral, mas não o texto não foi aprovado. Nele, ONGs, parentes de mortos pela polícia e policiais dissidentes exigiam que o "governo estadual, em parceria com a sociedade civil organizada, inicie o processo de construção de uma nova política de segurança que tenha como resultado uma outra instituição policial". O advogado Carlos Augusto Coimbra de Mello, da Comissão de Direitos Humanos da OAB, chegou a pedir a saída de Beltrame.

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