PMs integram milícia que torturou jornalistas, diz secretário

A Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados divulgou nota condenando a ação da milícia

Nicola Pamplona e Clarissa Thomé, O Estado de S. Paulo

01 de junho de 2008 | 20h39

A polícia já identificou os milicianos que seqüestraram e torturaram uma equipe de reportagem do jornal O Dia no último dia 14. Segundo o secretário estadual de segurança, José Mariano Beltrame, houve a participação de policiais no crime contra os jornalistas, que trabalhavam em uma reportagem sobre a ação de milícias na favela do Batan, na zona Oeste da cidade. Beltrame, porém, disse que "ainda não é hora" de ocupar a área e prender os criminosos, pois não há provas suficientes para condená-los.   O secretário acusou diretamente a policiais militares por fazerem parte de milícias. "O miliciano é um marginal ao quadrado, porque usa a estrutura do Estado, a carteira e o emblema da instituição (policia militar)", disse Beltrame. Segundo ele, o número de comunidades controladas por esses grupos caiu de 122 para "menos de 100" desde o início dos trabalhos. Ele não quis dar detalhes sobre investigações específicas, incluindo a referente às agressões aos repórteres, alegando que poderia atrapalhar os trabalhos.   A equipe de reportagem, que ficou mais de sete horas em cárcere privado, não chegou a fazer exame de corpo de delito, que comprovasse as agressões. Beltrame admitiu que o fato pode prejudicar o trabalho da polícia, mas disse reconhecer que o medo os levasse a tomar tal atitude. Segundo ele, o problema na coleta de provas contra as milícias vai além disso, pois não há elementos que levem ao flagrante.   "É difícil que uma testemunha concorde em ir a juízo depor em casos assim", apontou. "Por isso, é um trabalho longo e árduo da inteligência. Não adianta só prender, temos que ter provas para condenar e extirpar essas pessoas da polícia" O secretário não quis estipular um prazo para prender os envolvidos no crime contra os jornalistas, que viveram em uma casa alugada na favela por duas semanas antes de serem denunciados à milícia. Eles ficaram mais de 7 horas em cárcere privado.   A favela do Batan foi alvo de uma operação policial na noite de ontem, momentos depois de as agressões terem sido noticiadas, mas o resultado foi pífio: cinco revólveres enferrujados, dois deles sem gatilho. Os policiais estiveram na Rua São Dagoberto, 91. No local, além das armas quebradas, apreenderam 180 botijões de gás e 17 galões de água, além de aparelhos conversores e moduladores de canal, usados no serviço pirata de tevê a cabo.Beltrame disse que a operação não teve a ver com as agressões aos repórteres.   Segundo ele, deve ter se tratado de uma operação de emergência, provavelmente atendendo a chamado do 190 ou do disque-denúncia. "As operações contra milícias são feitas pela Delegacia de Repressão ao Crime Organizado (Draco), ressaltou. Funcionários do Dia foram orientados a não comentar o caso, principalmente por rádio ou telefone. As portas da sede da empresa ficaram fechadas ontem e a segurança do prédio foi reforçada.   A Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados divulgou nota condenando a ação da milícia da favela do Batan e cobrando providências do governo estadual. "Qualquer demora em responsabilizar os criminosos será entendida como conivência", afirma o texto, assinado pelos deputados do PSOL-RJ Chico Alencar (federal) e Marcelo Freixas (estadual).

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