'Pobreza não se define por dinheiro no bolso'

ENTREVISTA - Arilson Favareto, pesquisador do Cebrap

Isadora Peron, O Estado de S.Paulo

19 de junho de 2011 | 00h00

Em entrevista ao Estado, o pesquisador Arilson Favareto, do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), faz um alerta sobre os últimos dados do Censo: o número de miseráveis no Brasil pode ser muito maior do que os 16,2 milhões que vão ser contemplados pelo programa Brasil sem Miséria, recém-lançado pelo governo federal.

O Brasil sem Miséria poderia ter um alvo maior que 16,2 milhões de pessoas?

Pobreza não é algo que se define pela quantidade de dinheiro que uma pessoa tem no bolso. Além de ter um mínimo de renda, é necessário ter algum nível de instrução e condições para viver uma vida saudável. Se o País adotasse critérios multidimensionais para definir a pobreza, o número seria bem maior.

O Censo mostrou que há mais pobres na cidade, mas as políticas do programa parecem mais voltadas para o meio rural. Isso é um problema?

É, com certeza. Mas não é o único. A maneira como o programa define regiões rurais e urbanas é um outro problema grave. Isso cria uma separação artificial do público alvo que não corresponde à realidade. Há pessoas que moram na área rural e trabalham na urbana e vice-versa, então não faz sentido separar essas duas coisas como se as atividades tidas como urbanas - comércio, serviço, indústria - fossem uma coisa que só acontece em São Paulo.

O sr. identifica outros obstáculos no programa?

Sim. Esse projeto foi apresentado sem uma boa avaliação das iniciativas anteriores. Por exemplo, no primeiro governo Lula foi lançado o Fome Zero, mas qual a avaliação desse programa? Ninguém sabe. Outro problema é a maneira como se pensa a famosa porta de saída, isto é, os caminhos para sair da miséria. À medida que o programa tem determinadas ações voltadas para a pobreza rural e outras para a urbana, ele deixa de dialogar com uma das principais mudanças demográficas contemporâneas, que é essa maior interpenetração entre as áreas rurais e as pequenas cidades do interior. Para traduzir: a participação das atividades agrícolas é cada vez menor tanto na ocupação do trabalho das famílias como na renda. E o programa diz: para quem está na pobreza rural, atividades agrícolas. É um erro.

O agronegócio não é o caminho para minar a pobreza rural?

Certamente não, porque a agricultura é cada vez mais poupadora de trabalho. Na cultura da cana, você precisa de pelo menos 100 hectares para empregar uma pessoa. É claro que a agricultura é importante para o mundo porque a gente precisa de alimentos, mas ela não contribui para o combate à pobreza.

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