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Pode queimar estátua de racista?

Se derrubar, incendiar, destruir essas estátuas é ignorar a história, nada melhor do que inseri-las em um local justamente dedicado a contar e repetir a história para as gerações futuras: um museu

André Fran, O Estado de S.Paulo

20 de setembro de 2021 | 15h00

Uma de minhas maneiras favoritas de conhecer um país é visitar seus museus. Nos meus roteiros de viagem, seja na Inglaterra, na Bósnia, na Grécia ou no Afeganistão, o primeiro dia é sempre reservado a algumas horas dentro de um desses templos de preservação da nossa história. E fica o registro para o viajante interessado em seguir essa dica: conhecer uma cidade após entender os caminhos percorridos por esta na história até chegar ao momento atual ganha outra dimensão. Seus pontos turísticos, sua arquitetura e as próprias características da sociedade passam a fazer mais sentido. E, claro, sua experiência se torna mais interessante e valiosa. 

Foi por isso que, anos atrás, eu me encontrava dentro do “Museu de História Nacional” de Tirana, a capital da Albânia. Um passeio agradável e educativo como tantos que já fiz em nos mais diferentes países. Fonezinho com tradução, folheto-guia nas mãos, seguia eu por salões e corredores apreciando artes, relíquias e artefatos que explicavam a conturbada história desse pequeno país dos Balcãs.

Eis que ao virar uma curva e adentrar uma sala específica sobre o século XX, me deparo com uma bandeira nazista hasteada em todo o seu esplendor.  O choque é inevitável. Como um símbolo da perseguição desumana que exterminou milhões de vidas em nome do preconceito poderia estar assim exposto e preservado com todo cuidado e deferência? Como que percebendo meu espanto como uma deixa, o áudio explicativo que preenchia meus ouvidos durante aquele tour entrou explicando o período em que a Albânia foi ocupada pela Alemanha nazista entre os anos de 1943 e 1944, durante a 2ª Guerra Mundial. E então eu entendi: contexto. É ele que faz toda a diferença.

Estava refletindo sobre esse assunto recentemente, ao ler aqui no Estadão que avançou na Câmara de São Paulo o projeto que prevê substituir monumentos com menções a notórios escravocratas brasileiros.  Esse debate ganhou força desde que a estátua de Borba Gato, famoso bandeirante e escravocrata paulista, foi incendiada por manifestantes em julho deste ano.

Para muitos, a homenagem de mais de dez metros de argamassa é uma ofensa à memória dos povos negros e indígenas que foram explorados, violentados e assassinados pelo homenageado. Esse movimento de ataque a símbolos escravagistas ganhou corpo recentemente nos EUA, durante os protestos liderados pelo grupo “Black Lives Matter” após a morte de George Floyd. Por lá, diversas estátuas em homenagem a líderes confederados (que lutaram pelo sul escravocrata durante a guerra civil Americana) foram derrubadas por populares. Mas apenas esse mês uma corte decidiu oficialmente a favor da retirada do monumento ao general confederado, Rober E. Lee, em Richmond, na Virginia. 

Assim, voltamos à palavra contexto. Algo hediondo como uma bandeira nazista, dentro de um museu se torna uma lição sobre um período terrível que não deve ser repetido. A estátua de um defensor da escravidão erguida em praça pública não é nada além de uma homenagem. E não há contexto que justifique honraria a um racista.

Se Borba Gato, ou uma réplica da gigantesca estátua que fica em Santo Amaro, estivesse dentro de um museu na seção que explica as “Entradas e Bandeiras”, seus objetivos de expansão comercial mas também a forma como perseguiram escravos, destruíram quilombos e massacraram indígenas, faria mais sentido. Como a bandeira da ocupação da Alemanha nazista fazia sentido no museu nacional da Albânia, mas com certeza causaria espécie em que a vise hasteada em um maestro numa praça qualquer da capital do país.

Em tempos de polarização e ressurgimento de um extremismo que parece seguir a mesma cartilha preconceituosa dos Estados Unidos ao Brasil, passando por Hungria e Polônia, vemos se repetir algumas cenas quase como em remakes da mesma novela (mudando apenas os atores e o sotaque).

Sempre que, no Brasil, nos EUA ou qualquer outro lugar, ativistas e populares identificavam uma estátua cujo propósito já deveria ter sido reavaliado em uma sociedade que preza minimamente pela defesa das minorias e pautas identitárias, há um grupo do outro lado alegando que tais estátuas seriam símbolos de algum aspecto cultural a que pertencem e que derrubá-las seria como “apagar propositalmente um período da história”. E há uma certa razão nesses argumentos.

Mas se por um lado essas estátuas homenageiam notórios racistas que se destacaram no passado justamente por seus atos hediondos, essas não são figuras que mereçam qualquer tipo de reverência. E quantas personalidades, do passado ou presente, merecem hoje honrarias que seriam impensáveis séculos atrás? Por que não corrigir essas injustiças (mesmo que simbolicamente) agora? Ao mesmo tempo, não podemos esquecer o velho clichê: esquecer o passado é estar condenado a repeti-lo. Se derrubar, incendiar, destruir essas estátuas é ignorar a história, nada melhor do que inseri-las em um local justamente dedicado a contar e repetir a história para as gerações futuras: um museu.

O debate está em aberto. As decisões na Justiça parecem finalmente apontar um caminho. Como coloquei, ainda há uma longa jornada a percorrer. A substituição de símbolos pode ser o começo. Mas corrigir os erros do passado é meramente constatar que estamos evoluindo enquanto sociedade (aos trancos e barrancos). A maneira como vamos resolver nosso passado sem deixar de aprender com eles é o que vai definir quem queremos ser no futuro.

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