Poder paralelo vem crescendo

O poder paralelo dentro e fora das prisões tem se mostrado, em muitas cidades do País, cada vez mais presente, com os bandidos ameaçando, extorquindo e matando agentes penitenciários e policiais.Os criminosos dão ordens do interior das prisões e determinam quem vai morrer. Obrigam o comércio, bancos, empresas, consultórios médicos e outros estabelecimentos a fechar as portas em represália à ação da polícia e das autoridades do sistema carcerário.Os comerciantes, mesmo com a presença da polícia, recusam-se a abrir as portas. Preferem atender aos bandidos e só funcionam com a autorização deles. E atendem porque sabem que os policiais voltam para os quartéis e delegacias, e os bandidos continuam nos bairros.Nos municípios da Grande São Paulo e bairros da zona sul da capital, traficantes e ladrões medem forças com a polícia. E muitas vezes acabam vencendo. Foi o que ocorreu em março no Jardim Elba, na zona leste, no enterro do assaltante Sandro Rogério da Silva, um dos 12 mortos em ação da polícia em Sorocaba.Ligado a uma quadrilha de traficantes e de assaltantes de bancos que agia na zona leste da capital, ele estava no ônibus com outros 11 assaltantes que pretendiam roubar dinheiro transportado por um avião em Sorocaba. Foram cercados por mais de cem policiais militares e mortos com dezenas de tiros numa ação da Polícia Militar que usou como informantes presos condenados infiltrados nas quadrilhas.Antes, durante e depois do enterro de Silva, os comerciantes do Jardim Elba foram obrigados a ficar com as portas de lojas, açougues, padarias e farmácias fechadas. A polícia, chamada por moradores, apareceu, mas não conseguiu convencer os comerciantes a reabrir o comércio. Todos preferiram obedecer à ordem do tráfico. Horas após o enterro, alguns comerciantes resolveram trabalhar. A maioria preferiu abrir somente no dia seguinte.A polícia tentou identificar os integrantes da quadrilha de Silva que haviam determinado o fechamento, mas não conseguiu. Apenas duas semanas depois, um dos que haviam determinado o fechamento foi identificado e indiciado em inquérito.Em maio, na zona sul, a morte dos assaltantes Edson Silva Dantas e Luciano Oliveira Santos por militares das Rondas Ostensivas Tobias Aguiar (Rota) foi motivo para que o comércio no Parque Bristol, zona sul, passasse o dia fechado por determinação dos traficantes da região. Os bandidos haviam sido perseguidos pelos policiais e teriam morrido na troca de tiros.Quando a Secretaria da Segurança Pública soube do fechamento do comércio por ordem do crime, mandou dezenas de policiais civis e militares. A pé e de carro eles percorreram a região comercial do bairro, pedindo a abertura das lojas, pois dariam a garantia de segurança. Ninguém obedeceu. Os comerciantes argumentaram que seria um risco abrir seus estabelecimentos porque os criminosos se vingariam.Um deles, dono de uma pizzaria, apesar da garantia dada pelos policiais civis e militares, preferiu esperar pela ordem dos bandidos. "É triste dizer isso, mas é a realidade que a gente vive. A polícia vai embora porque não tem condições de ficar o tempo inteiro com a gente, que seria o correto. É melhor ficar um dia sem ganhar do que ser morto", disse o comerciante.

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