Polícia acha cativeiro e liberta menina de 8 anos

"O Mário não quer saber se a vítima é criança, velho ou moço. O que ele quer é o dinheiro. Só o dinheiro", disse Cícero Costa, de 31 anos, aos policiais militares que o prenderam no fim da noite desta quinta-feira, na Favela Paraisópolis, Morumbi, na zona sul de São Paulo, onde era o carcereiro de uma menina de 8 anos, seqüestrada havia 17 dias na saída da escola, em Santo Amaro.Um telefonema ao Disque-Denúncia do Instituto São Paulo Contra a Violência permitiu à Polícia Militar localizar o cativeiro, libertar a garota e prender Costa. Segundo o bandido, o chefe dos seqüestradores tem o apelido de Mário. Ele usa vários barracos da favela para manter reféns, e a quadrilha é composta por dez pessoas.Mário começou seqüestrando homens e mulheres. Depois passou a capturar crianças. "O Mário acha que os pais pagam mais rápido para ter o filho pequeno de volta", disse Costa aos militares. Com passagens por furto, ele ficou surpreso com a chegada dos soldados e correu para a janela tentando fugir.Ao ver o cano do revólver de um policial apontado para sua cabeça, Costa levantou os braços e pediu para não ser morto. A menina, que dormia num dos dois quartos da casa de alvenaria da Rua Major José Mariotto Ferreira, acordou com os gritos dos militares e do bandido.Assustada, abraçou um soldado e começou a chorar, dizendo que estava com saudade da mãe e queria ir para casa. Filha de um dono de churrascaria na zona sul da capital, K. estava acompanhada da mãe quando foi seqüestrada por três homens na saída da escola, no dia 15 de outubro.A menina foi colocada numa Kombi, e a mãe, avisada para "arranjar bastante dinheiro" para o resgate, se quisesse ver a filha novamente. K. foi direto para a favela. O cativeiro tinha dois colchonetes no chão. A garota dormia num deles. Os bandidos alimentaram a refém com bolachas, sanduíches, água, arroz, feijão e frango.Eles passaram a negociar o pagamento do resgate por telefone. O primeiro pedido teria sido de R$ 500 mil. O pai da garota repetiu aos bandidos que nem vendendo o restaurante e os bens que a família possui conseguiria o dinheiro.Nos telefonemas, pedia para que libertassem a filha. A resposta era sempre a mesma. Sem dinheiro, a garota não voltaria para casa.O telefonema denunciando o cativeiro foi recebido pelo Disque-Denúncia pouco depois das 18 horas desta quinta-feira. O Serviço Reservado do 16º Batalhão da PM foi acionado. A informação era que uma menina estava sendo mantida refém de seqüestradores num barraco da favela Paraisópolis, e ela chorava quase todos os dias.Os militares prepararam um plano para entrar na favela sem provocar a suspeita dos seqüestradores. Com a ajuda de policiais da Ronda Motorizada e da corporação, montaram um bloqueio com motos para fiscalizar as proximidades. Enquanto isso, outro grupo de militares entrava na Paraisópolis à procura do cativeiro.Após a prisão de Costa e o resgate da menina, que foi entregue em seguida aos pais, os militares continuaram à espera dos criminosos. No fim da madrugada desta sexta, os PMs regressaram para o quartel. Os integrantes da quadrilha não voltaram. A garota foi examinada por um médico e, segundo a polícia, não apresentou problemas de saúde. Estava mais magra.A família, que pediu para não ser identificada, quer esquecer o trauma vivido durante os 17 dias do seqüestro. Costa foi autuado na Divisão Anti-Sequestro (DAS). O Disque-Denúncia recebeu, de 1º de janeiro a 30 de setembro, 1.786 denúncias sobre seqüestros.

Agencia Estado,

01 de novembro de 2002 | 22h33

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