Polícia Civil aponta que 80% da renda do PCC tem origem no tráfico

Investigações revelam que facção age como atacadista, obrigando traficantes a comprarem a ?sua? cocaína

Marcelo Godoy, O Estadao de S.Paulo

22 de março de 2008 | 00h00

Investigações da Polícia Civil mostram que 80% da renda do Primeiro Comando da Capital (PCC) tem origem no tráfico de drogas. A cúpula da facção criminosa decidiu apostar na distribuição de cocaína. Tornou-se atacadista, obrigando os donos dos pontos-de-venda a comprar seu entorpecente, mesmo que o preço e a qualidade da droga entregue não sejam os melhores existentes no mercado."Trata-se de um esquema mafioso. Quem não compra assume o risco da recusa. Quem adquire a droga da facção ganha proteção", afirmou o promotor Márcio Sérgio Christino, que acompanha os passos da organização.O envolvimento do PCC com as drogas tem duas vertentes. Uma é a filiação de donos de pontos-de-venda em regiões como as favelas do Jardim Elba (zona leste de São Paulo), Heliópolis (zona sul) e Paraisópolis (zona sul) à facção. A outra é o esquema de distribuição mantido pela cúpula da organização, o chamado bicho-papão. Entre os líderes do PCC, o tráfico é tratado simplesmente como "o progresso".Normalmente, os traficantes individuais pagam apenas a mensalidade de R$ 600 que cada integrante da facção em liberdade deve entregar ao PCC. Há, no entanto, exceções. Esse é o caso de Edílson Borges Nogueira, o Biroska, e Marcos Paulo Nunes da Silva, o Vietnã. Biroska controla o tráfico em Diadema e Vietnã, no complexo de favelas da Alba, do Vietnã e da Água Espraiada, na zona sul. Os dois estão presos na Penitenciária 2 de Presidente Venceslau e se tornaram, segundo a inteligência policial, os maiores financiadores da facção. Biroska e Vietnã encomendariam cocaína da Bolívia e maconha do Paraguai, drogas que são distribuídas em São Paulo.O outro esquema é o do bicho-papão. Essa é uma atividade cujos dividendos são repartidos apenas entre os chefões. "Esse dinheiro não entra no caixa da organização", disse um delegado do Departamento de Investigações sobre o Crime Organizado (Deic). A cúpula do PCC não mexe com maconha, pois ela dá pouco lucro. Isso não impede que individualmente integrantes do PCC distribuam a droga, conforme mostra interceptação telefônica feita pelo Deic das conversas mantidas por Carla Patrícia de Andrade, a Carlinha, que cuidava dos pedidos do bicho-papão (leia trechos abaixo).QUEBRADACom o bicho-papão, todo dono de ponto de droga na periferia passou a ser obrigado a comprar a droga do comando. Os donos das bocas costumam comprar cargas de cocaína mais puras de outros fornecedores para misturarem à droga fornecida pelo PCC e assim aumentar a qualidade do produto.Quem fiscaliza o funcionamento do esquema é o chamado "sintonia", gerente das quebradas. Ele é que garante o domínio do PCC. Um líder comunitário de um bairro na divisa da zona norte de São Paulo explica que o avanço do PCC sobre o tráfico de drogas fortaleceu os sintonias (gerentes).O domínio da facção não ocorre pela força. Ao estabelecer a parceria que obriga os donos das bocas a comprarem o "bicho-papão", o PCC torna o dono da biqueira (varejista) um aliado do Partido (atacadista). Cabe ainda aos "sintonias das quebradas" exercer a função de "síndico" entre a população local, uma espécie de guardião moral do lugar.É ainda do bicho-papão que sai a droga enviada às faculdades, como são chamadas as penitenciárias controladas pela facção - cerca de 90. A contabilidade do bicho-papão apreendida pelo Deic em 2006 mostrou que naquela época entravam nas penitenciárias cerca de 130 quilos de cocaína por mês.LABORATÓRIOSOs integrantes do PCC estão ainda estabelecendo uma rede de laboratórios para o refino da cocaína e para o seu batismo, a mistura da droga pura com cafeína, lidocaína e outras substâncias a fim de aumentar-lhe o peso e também o lucro da organização.No último ano, policiais do Departamento de Polícia Judiciária do Interior-1 (Deinter-1) localizaram quatro laboratórios de refino de cocaína na região da Serra da Mantiqueira e do Vale do Paraíba. Era dali que saía a droga para abastecer os pontos-de-venda do litoral norte.Segundo o Ministério Público Estadual, quatro chefes do PCC cuidam do bicho-papão. Ronaldo José de Simone, o Elefante, Rogério Jeremias de Simone, o Gegê do Mangue, Julio Cesar Guedes de Moraes, o Julinho Carambola, e o líder máximo da organização, Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, todos denunciados por tráfico de drogas e associação para o tráfico.

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