Wilton Júnior/AE
Wilton Júnior/AE

Polícia Civil do Rio aponta indícios de irregularidades em delegacia lacrada

Chefe da corporação vasculhou Draco, comandada por Claudio Ferraz, colaborador da PF em investigações que prenderam 35 policiais na sexta-feira

Pedro Dantas, Bruno Boghossian e Marcelo Auler , O Estado de S. Paulo

14 de fevereiro de 2011 | 19h59

RIO - Três dias após a Polícia Federal prender 35 policiais no Rio, o chefe de Polícia Civil, Allan Turnowski, contra-atacou e vasculhou a Delegacia de Repressão às Atividades Criminosas (Draco), comandada por Claudio Ferraz - colaborador da PF nas investigações da Operação Guilhotina e recém-escolhido para conduzir futuras investigações contra policiais na nova Superintendência de Contra-Inteligência da Secretaria de Segurança Pública.

 

Veja também:

linkÉ um constrangimento', diz chefe de delegacia lacrada

link'Não se joga uma pessoa aos leões sem provas', diz Beltrame

 

Após fechar o acesso à Draco com uma equipe da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core), Turnowski anunciou uma "devassa" à delegacia. Segundo o chefe da Polícia Civil, uma carta com denúncias de "diversas irregularidades" envolvendo Ferraz havia sido deixada na portaria de sua residência no domingo.

 

Uma das alegações aponta que policiais da Draco teriam cobrado propina de funcionários da prefeitura de Rio das Ostras (região dos lagos do Rio) para suspender a apuração de fraudes em licitações no município. Os supostos indícios do crime apresentados por Turnowski são registros duplicados dessa investigação: um documento de 16 de agosto de 2008 instaurava um inquérito na Draco e outro, com data de dois dias depois, arquivava o caso.

 

"A denúncia dizia que, apesar da determinação de instauração de inquérito policial no dia 16, (o procedimento) tinha sido arquivado no dia 18, em razão de recebimento de valores indevidos", disse o chefe da Polícia Civil, enquanto apontava, com o indicador trêmulo, as cópias dos documentos.

 

De acordo com apurações iniciais de Turnowsky, apenas o documento que determina a suspensão da investigação consta no procedimento encontrado na Draco. O registro que supostamente determinaria a instauração de um inquérito teria sido confeccionado para extorquir funcionários da prefeitura.

 

O documento que estava na delegacia está assinado por Ferraz, ao lado do carimbo com sua matrícula, e pelo inspetor Luiz Henrique Placidino. O registro clandestino, apresentado por Turnowsky, apresenta uma assinatura semelhante à de Ferraz, sem carimbo, e uma assinatura diferente de Placidino. Apesar do anúncio do chefe de polícia, ainda não foi feita uma perícia nos documentos.

 

A denúncia apresentada por Turnowsky também cita casos de cobrança de propina por agentes da Draco durante uma operação da PF e a suspensão indevida de investigações de formação de quadrilha em Japeri, na região metropolitana do Rio. Também foram encontradas na delegacia seis armas sem registro formal de apreensão. A equipe do secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, informou que ele está analisando o caso e que não se pronunciaria.

 

O corregedor da Polícia Civil, Gilson Emiliano Soares, confirmou que as denúncias serão investigadas, mas adotou uma postura de cautela."A circunstância do aparecimento deste registro (instaurando o inquérito) discrepando do que consta no procedimento (arquivado na delegacia) é passível de apuração. Dizer que houve ou não exigência de dinheiro, eu não posso ser leviano", disse o corregedor.

 

O delegado titular Draco, Claudio Ferraz, classificou como constrangedora a ação da corregedoria de Polícia Civil, mas disse que não estava surpreso. "Sabia desta investigação há alguns meses. A surpresa foi a forma como ocorreu. Fique sabendo pela imprensa", declarou.

 

Ferraz negou que a delegacia tenha sido fechada e disse que os acessos estavam "franqueados" à corregedoria. Ao saber das denúncias de Turnowski, ele reagiu com tranquilidade. "As pessoas que afirmaram isto vão se apresentar e será apurado". Ferraz negou qualquer rivalidade com o chefe de Polícia Civil. "Se há rivalidade, eu desconheço", afirmou.

 

O delegado federal Allan Dias, responsável pela Operação Guilhotina, pretende entregar até quinta-feira ao Ministério Público o relatório final do caso, para que seja apresentada a denúncia contra os 45 envolvidos. Novos nomes que surgirem na investigação a partir da análise do material apreendido no cumprimento dos 48 mandatos de busca e apreensão serão encaminhados à própria Secretaria de Segurança, para dar continuidade às investigações.

 

Segundo Dias, também ficará por conta da Secretaria a análise da evolução patrimonial dos envolvidos, uma vez que ainda não foi possível rastrear em cartórios e outros bancos de dados os bens dos suspeitos. No Ministério Público do Estado, é considerado certo que todas as novas investigações ficarão a cargo do delegado Claudio Ferraz, quando ele assumir a Superintendência de Contra-Inteligência.

Tudo o que sabemos sobre:
Riopolícia

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.