Polícia Civil do RJ tem 35 cm2 para cada preso

Os 6 mil presos custodiados pela Polícia Civil fluminense têm, em média, 35 centímetros quadrados, cada um, de área para viver nas celas. Em algumas carceragens, os cubículos ficam abertos para aumentar a circulação de ar, segundo o diretor da Divisão de Capturas e Polícia Interestadual (Polinter), delegado Luiz Antônio Buzinaro. É o caso da Polinter de Ricardo de Albuquerque, que tem capacidade para 280 homens, mas abriga 900. Ali, três presos foram assassinados na noite de ontem, numa briga pelo poder na prisão."A legislação prevê que cada preso tenha seis metros quadrados de espaço. É uma lei utópica, e eu acho até demais. Uma casa popular vendida a um trabalhador tem 15 metros quadrados para cinco pessoas. Mas a situação na Polinter está insuportável", afirmou Businaro. "Estamos administrando crises".Businaro refere-se ao episódio da noite de segunda-feira, quando os presos Jefferson Rodrigues Oliveira, Fernando Antônio Caetano Barreira e Oswaldo Henrique Gomes foram mortos a golpes de estoques (punhais), canos e até motor de ventilador, numa briga pelo poder da cadeia. "Eles tentaram botar fogo nos corpos para provocar uma fuga, mas conseguimos evitar", disse. Dez presos suspeitos dos assassinatos começaram a ser ouvidos hoje.Businaro se queixa de que há três semanas não há transferências. "Na sede da Polinter, onde estão 1.300 homens, tudo o que separa os presos da rua é uma parede. Já no presídio de Bangu 3, há 900 presos cercados por muros de concreto, guaritas", comparou o delegado. Foi na sede da Polinter, na Zona Portuária, que traficantes promoveram uma fuga jogando um caminhão contra a parede da carceragem, há um ano.O secretário de Estado de Justiça, Paulo Saboya, reconhece que a situação das carceragens é "grotesca", mas ele diz que "não se pode despir um santo para vestir outro". "Não podemos fragilizar ainda mais o sistema penitenciário com superlotação". Saboya responsabiliza o governo de Anthony Garotinho pelo caos no sistema. "Foram fechadas as carceragens, mas as casas de custódia não foram construídas no mesmo ritmo", disse. Quatro casas estão sendo erguidas no Estado, mas não há previsão para a conclusão das obras.O vice-presidente da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil, Wanderley Rebello, defende que o Judiciário liberte autores de crimes considerados leves (estelionato, furto) para abrir novas vagas nos presídios. "Quando a gente defende isso, pensa em quem está aqui fora. A nossa preocupação é que eles saiam ainda piores, se continuarem nessas condições", afirmou o advogado, que é membro do Conselho Penitenciário do Estado. Ele conta que, numa visita à sede da Polinter, encontrou presos pendurados nas grades, com as pernas voltadas para o lado de fora. "As pessoas têm que se revezar para que algumas possam deitar", disse. "Temos processos na Ordem sobre a situação das carceragens. A verdade é que o preso é mercadoria de pouco valor. Eles não votam".

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