Wilton Junior/Estadão
Wilton Junior/Estadão

Polícia Civil indicia 10 PMs por morte de Amarildo

Entre eles está o major Edson Santos, que era comandante da UPP da Rocinha quando Amarildo sumiu

Fábio Grellet e Marcelo Gomes, O Estado de S.Paulo

01 Outubro 2013 | 22h21

A Polícia Civil do Rio indiciou, nesta terça-feira, 1, dez policiais militares pelo desaparecimento do pedreiro Amarildo de Souza, de 43 anos, morador da Rocinha (favela na zona sul do Rio). Eles são acusados de sequestro seguido de morte e ocultação de cadáver. A polícia também pediu a prisão preventiva dos PMs.

Amarildo desapareceu na favela em 14 de julho passado, depois de ser detido por PMs da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) local. O sumiço virou palavra de ordem em passeatas ocorridas em todo o País.Artistas como o cantor Caetano Veloso e o ator Wagner Moura vieram a público cobrar do governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), esclarecimentos sobre o destino do pedreiro. Manifestantes perguntavam em coro, durante protestos em frente ao prédio de Cabral (Leblon, zona sul): "Cadê Amarildo?".

Na última sexta-feira, o Estado havia antecipado o indiciamento dos policiais e que os investigadores descartavam a hipótese de que traficantes de drogas da Rocinha houvessem matado Amarildo.

O delegado Rivaldo Barbosa, da Divisão de Homicídios, entregou o relatório do inquérito, com 180 páginas, ao promotor Homero Freitas na noite desta terça-feira. Entre os dez indiciados está o major Edson Santos, que era comandante da UPP quando Amarildo sumiu, e os PMs Douglas Roberto Vital Machado, Jorge Luiz Gonçalves Coelho, Marlon Campos Reis e Victor Vinícius Pereira da Silva.Em depoimentos ao longo do inquérito todos os PMs negaram envolvimento no sumiço do pedreiro. Eles afirmaram ter liberado Amarildo após constatar que não era procurado pela Justiça.

Naquele dia havia 13 policiais trabalhando na UPP, dos quais dez foram indiciados ao final do inquérito. Nem a Polícia Civil nem a Secretaria de Segurança Pública do Estado do Rio tinham revelado os nomes de todos os acusados até às 22h desta terça-feira, 1.

O relatório do delegado da Divisão de Homicídios foi finalizado após duas testemunhas acusarem o major Edson Santos de tentar corrompê-las para acusar o traficante Thiago Neris, o Catatau, pela morte de Amarildo. Santos, transferido do comando da UPP para o Batalhão de Operações Especiais (Bope) após a repercussão ruim da ação policial,afirmou que as acusações são falsas.

Até esses dois depoimentos, Barbosa considerava ainda não ter indícios capazes de levar ao indiciamento dos PMs. Os depoimentos das duas testemunhas - mãe e filho de 16 anos, moradores na Rocinha - ocorreram praticamente por acaso.Em 25 de maio, o garoto foi ferido por um tiro de fuzil ao tentar fugir de PMs da UPP, que o acusavam de ligação com o tráfico. Após o sumiço de Amarildo, a pedido do major, ele depôs no Inquérito Policial Militar (IPM)aberto pela Corregedoria da PM para investigar a participação de policiais no desaparecimento do pedreiro.Na ocasião, o adolescente acusou Catatau pelo sumiço. Ele teve alta em 11 de setembro e deveria ser levado à 14ª Delegacia de Polícia (DP)para depor sobre sua detenção, mas foi conduzido por engano pelos PMs que o escoltavam para a 15.ª DP. Naquela delegacia ele contou ao delegado Orlando Zaccone que havia acusado Catatau porque Santos lhe oferecera R$ 500 mensais para ele e a mãe alugarem uma casa fora da Rocinha. Na comunidade, eles estariam jurados de morte por traficantes.

Ainda segundo o adolescente, um policial da 15.ª DP prometeu lhe presentear com um iPhone e um par de tênis para que mantivesse a acusação contra Catatau. O mesmo policial participou da investigação que resultou na Operação Paz Armada, quando 33 suspeitos de ligação com o tráfico na Rocinha foram presos, na véspera do sumiço de Amarildo.

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