Polícia começa a listar suspeitos de crime no Pará

Secretário de Segurança Pública acompanhou as investigações em Nova Ipixuna e afirmou que mortes foram premeditadas

Yáskara Cavalcante, O Estado de S.Paulo

26 de maio de 2011 | 00h00

ESPECIAL PARA O ESTADO / BELÉM

A força policial que investiga a execução do casal de extrativistas José Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo da Silva começou ontem a ouvir parentes e amigos das vítimas. Não há confirmação oficial, mas as autoridades já começaram a montar uma lista de potenciais suspeitos de ter encomendado o crime. Os corpos de José Cláudio e Maria começaram a ser velados ontem, em Marabá, e serão enterrados hoje.

O secretário de Segurança Pública do Pará, Luiz Fernandes Rocha, acompanhou ontem os trabalhos de investigação em Nova Ipixuna, município no sudeste do Estado. Ele chegou ao local do crime na noite de terça-feira, acompanhado do delegado-geral-adjunto do Pará, Rilmar Firmino. Rocha também esteve na Delegacia de Conflitos Agrários de Marabá, cidade mais próxima à área do Projeto de Assentamento Agroextrativista Praialta-Piranheira, onde o casal foi morto em uma emboscada.

"Assim que cheguei à Marabá, fui até a delegacia. Também estive na casa da família das vítimas, que está muito chocada, eu diria até dispersa em colaborar com as investigações. Mas, vimos que os familiares têm absoluta certeza de que vamos chegar aos culpados", disse o secretário.

Rocha informou que os peritos do Centro de Perícias Científicas Renato Chaves, de Marabá, já têm elementos para provar que o crime foi premeditado. "Tudo indica que foi um crime planejado, pois o assassino ficou esperando o casal passar", afirmou. Segundo o secretário, a polícia não sabe se alguém testemunhou o duplo homicídio.

Além da Polícia Civil, homens da Polícia Federal atuam no caso, conforme determinação direta da presidente Dilma Rousseff ao Ministério da Justiça. O superintendente da PF no Pará, Manoel Fernando Abbadi, enviou uma equipe para Marabá para acompanhar as investigações.

Para o secretário de Segurança do Pará, o trabalho em conjunto entre as Polícias Civil, Militar e Federal vai dar celeridade às investigações - as Delegacias de Conflitos Agrários de Marabá e de Belém também atuam no caso. "A população do Pará e do Brasil pode ficar tranquila, porque esse crime não ficará impune", prometeu Rocha.

Mutilação. José Cláudio e Maria do Espírito Santo lutavam contra a devastação florestal e a exploração ilegal de madeira no entorno da comunidade de Maçaranduba desde 2008. O extrativista chegou a gravar um vídeo naquele ano, dizendo que corria o risco de ter o mesmo destino de outros ativistas, como o seringueiro Chico Mendes e a missionária Dorothy Stang, dois casos de violência no campo que tiveram repercussão mundial.

A Polícia Civil confirmou ontem que parte da orelha direita de José Cláudio havia sido mutilada - uma forma de os executores do crime confirmarem a execução das vítimas a quem encomendou o crime.

Os peritos devem divulgar hoje um laudo indicando o número de tiros que atingiram o casal de extrativistas, outro dado que ajuda a polícia a comprovar a premeditação do crime.

Parentes e amigos que acompanharam o velório do casal lembraram que José Cláudio e Maria faziam parte de uma relação de 58 pessoas ameaçadas de morte no Estado. A lista foi elaborada pela Comissão Pastoral da Terra (CPT). O sul do Pará é uma das regiões que mais registram casos de violência no campo.

Emboscada

LUIZ FERNANDES ROCHA

SECRETÁRIO DE SEGURANÇA PÚBLICA DO PARÁ

"Tudo indica que foi um crime planejado. O assassino ficou esperando o casal passar"

PONTOS-CHAVE

Violência no campo é maior na Região Norte

Rio Maria (PA)

Defensor da reforma agrária, João Canuto foi morto em dezembro de 1985. Um ex-prefeito da cidade e um fazendeiro foram indiciados pelo crime em 1996.

Xapuri (AC)

Chico Mendes foi morto em 1988. Os fazendeiros Darly e Darcy Alves cumpriram 10 anos de prisão e hoje vivem na cidade onde ocorreu o crime

Anapu (PA)

A missionária Dorothy Stang levou seis tiros, em fevereiro de 2005. Estão presos dois executores e três fazendeiros apontados como mandantes do crime

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