Polícia começa a mudar de cara no Rio

Com fama de durão, novo chefe colhe elogios até entre adversários

Márcia Vieira, O Estadao de S.Paulo

08 Agosto 2009 | 00h00

Allan Turnowski, de 39 anos, assumiu a chefia da Polícia Civil no Rio há três meses e meio. Chegou com a fama de policial durão, matador. "Matador, não", reage. "Sou rígido. Vou até o fim nas minhas operações. Se um bandido atira em um policial vai tomar tiro até largar o fuzil", avisa. Turnowski virou chefe fazendo barulho. Vinte dias depois de assumir, prendeu Ricardo da Cruz Teixeira, o Batman, líder de uma poderosa milícia. Na operação, não foi disparado nenhum tiro graças às informações da missão suporte que Turnowski montou só para investigar milícias. Um mês depois, a Polícia Civil resolveu também o caso de Patrícia Franco, engenheira de 24 anos morta há um ano. O que parecia ser um acidente de carro fatal acabou se revelando um assassinato provocado por policiais militares durante uma falsa blitz. Os PMs estão presos. A resolução dos dois casos, graças ao trabalho de investigação e inteligência, deu prestígio a Turnowski. "Ele está sendo uma surpresa", admite a cientista social Sílvia Ramos, do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Candido Mendes, que sempre criticou a política de segurança baseada no confronto. "O Rio vive um momento de esperança. Ainda não dá para comemorar porque temos muito trabalho pela frente." O secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, já vê sinais de mudança. "O Allan é uma pessoa preparada, com experiência reconhecida pelos seus subordinados. Ele apresentou um projeto viável para a Polícia Civil. Hoje, há uma nítida mudança administrativa." O maior desafio de Turnowski agora é convencer a sociedade. Quer acabar com a fama de corrupta e ineficiente que a polícia tem entre boa parte dos cariocas. Primeiro, ele mesmo admite, tem de aumentar a eficiência da polícia e reduzir os índices de violência, hoje em patamares altíssimos. De março a maio, o Rio teve 1.652 homicídios e 7.214 roubos de veículos. As ações policiais, civis e militares, deixaram 285 mortos em confronto nas comunidades. Seu plano de ação começa pela mudança de escala do trabalho. Vai acabar com os plantões de 24 horas com descanso de 72 horas. "Policial vai trabalhar de segunda a sexta, investigando. Não quero desculpas para não atingir as metas. Se o policial não pode atender todo mundo bem na delegacia, que atenda pelo menos cinco pessoas muito bem. Pelo menos essas cinco vão falar bem da gente." Turnowski conhece bem o preconceito que a polícia enfrenta. Judeu, filho de uma família tradicional de advogados, só estudou em boas escolas. Foi surfista. Disputou torneio de futebol, natação e jiu-jítsu. Aos 23 anos, formado no prestigiado curso de Direito da Universidade do Estado do Rio, foi trabalhar no escritório de advocacia do pai. Ganhava bem, morava na Barra, tinha carrão, pegava onda na praia. Um vidão. Mas achava o trabalho chatíssimo. "Era muito papel. Já fiz Direito pensando em ser delegado." A notícia foi um choque. O pai detestou, os amigos acharam tão esquisito que foram se afastando. Não havia muito o que fazer. "É uma questão de vocação. Para ser um bom policial tem de ter polícia no sangue." Turnowski é movido a adrenalina. Adora participar de operações policiais. Liderou uma equipe na famosa invasão do Complexo do Alemão, em 2007, quando 1.350 policiais cercaram o conjunto de favelas. Nas cinco horas de tiroteio morreram 19 pessoas. "Todos eram bandidos", jura. E bandido tem de morrer? "Se alguém te dá um tiro, é legítimo revidar. Não me peça para hesitar e morrer na mão de traficante." Não foi o que acharam grupos de direitos humanos que protestaram contra a polícia na operação do Alemão. "O que dói depois desses combates é sair da favela e, em vez de ser considerado um herói, ser chamado de assassino por alguém de direitos humanos." O discurso está mudando. Turnowski corteja as organizações de direitos humanos que sempre o atacaram. Até já admite que elas têm o seu papel. "Quando entrei na polícia via direitos humanos como uma coisa parcial. Os caras ganham dinheiro de uma ONG para fazer isso, vão parar de fazer por quê? Hoje não. Acho que essas organizações podem ajudar a manter a polícia no padrão da lei, evitando excesso." Na tarde de sexta-feira, Turnowski recebeu a socióloga Julita Lemgruber em seu gabinete. Os dois sempre estiveram em lados opostos. "Vamos discutir um projeto", disse Julita. Sílvia Ramos também trabalha em um projeto em parceria com a Polícia Civil. É o Papo de Responsa, junto com o AfroReggae. Uma dupla formada por um ex-bandido e um policial vai percorrer as escolas públicas falando sobre suas experiências. "Ou o Allan Turnowski mudou muito ou nós estávamos errados quando criticávamos ele", admite Sílvia. Pelo menos no discurso e na aparência, Turnowski mudou. Trocou a roupa preta pelo terno. O fuzil pelo celular BlackBerry. A favela pelo escritório com ar-condicionado. Mas, admite, sente falta da adrenalina. Não sabe quanto tempo vai levar essa vida de gabinete. "O cargo de confiança é como videogame. Se estou caminhando bem, vou acumulando vidas. A cada besteira, vou perdendo essas vidas. Até que um dia me mandam embora."

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