Polícia de Campinas trabalha em horário comercial

A folga do final de semana é sagrada para a polícia de Campinas. Ontem, dois dias após a dona de casa Rosana Rangel Melotti, de 52 anos, ser assassinada no bairro campineiro Parque Taquaral, e que estava seqüestrada desde o dia 4 de janeiro, funcionavam apenas quatro dos 12 distritos policiais (DPs) da cidade. A Delegacia Seccional de Campinas bem como a Divisão de Investigações Gerais (DIG), na qual funciona a Delegacia Anti-Seqüestro, também estavam fechadas.Durante a semana, os DPs fecham às 18 horas. A única exceção é o 1º DP, localizado ao lado da DIG e da seccional. Nele, ontem, não havia ninguém que pudesse dar informações sobre as investigações do caso e sobre a procura de Wanderson Newton de Paula Lima, o Andinho, apontado como responsável pelo seqüestro da dona de casa. "O delegado e a equipe que estão trabalhando são plantonistas e não estão a par do assunto", disse uma escrivã. "Acho que estamos desprestigiados", diz um campineiro que não quis se identificar. Em seu carro, um adesivo dizia ?Quero Viver".Efetivo reduzidoA ONG Campinas Reage dá números do desprestígio que a cidade passa. Com um milhão de habitantes, Campinas tem apenas 1,8 mil policiais militares. "Ribeirão Preto, que é tranqüila, proporcionalmente, tem o dobro de policiais", afirma um dos diretores da ONG, que não se identificou. Segundo ele, dos 1,8 mil PMs de Campinas, 600 realizam trabalhos burocráticos. O restante divide-se em quatro turnos, deixando cada um dos quais com apenas 300 homens.O diretor da ONG tem outra explicação para os DPs da cidade terem adotado o horário comercial para seu funcionamento. "Eles fecham por medo de assalto", diz o diretor, concluindo com uma risada. Mas emenda: "É sério!."Por conta disso, as reuniões de sua ONG, bem como das outras cinco da cidade que tratam de segurança pública, acontecem apenas durante o dia. "Temos medo. As escolas já começam a ter problemas com os cursos noturnos, já que as professoras preferem trabalhar durante o dia, isso quando vêm trabalhar", afirma. Estado de SegurançaReunidas, as ONGs começam a colher assinaturas para um abaixo-assinado que será enviado ao ministro da Justiça, Aloysio Nunes Ferreira, pedindo intervenção federal na cidade. "Queremos que o governo federal decrete estado de segurança em Campinas", diz o diretor.Para tanto, seria necessário um decreto do presidente Fernando Henrique Cardoso, que nomearia um interventor para a região. Este teria poder até para cassar direitos constitucionais. Pela Constituição, o estado de segurança difere do estado de sítio por ser restrito a uma área onde a ordem pública sofre instabilidade.Descontos do IRÉ o caso de Campinas, segundo o diretor da ONG. "Nosso maior problema é a corrupção da polícia. Temos medo de represálias, mas não sabemos de onde elas podem vir. Sabemos que há vazamento de informações, mas não sabemos por onde", diz o diretor, sem saber em quem pode confiar. Uma das ordens dadas pelos seqüestradores que agem na região para suas vítimas é manter a polícia afastada do caso, sem informações sobre o crime.Outra proposta que a ONG discute e que poderá ser encaminhada ao ministro da Justiça e ao secretário da Receita Federal, Everardo Maciel, é a de que gastos com segurança - incluindo pagamento de resgate -, ou que decorram de sua falta, sejam descontadas no Imposto de Renda (IR). Segundo o diretor, um advogado tributarista, gastos com segurança e decorrentes de naufrágios já puderam ser descontados do IR. "Parou-se com isto para que se aumentasse a arrecadação."A proposta, no entanto, sofre algumas objeções dentro da própria ONG. "Alguns consideram que isto serviria para aumentar o valor dos resgates", diz o diretor. "Mas não considero que seja por aí. A segurança pública chegou a um ponto insustentável. Temos de contratar serviços pelos quais já pagamos impostos", conclui. A idéia discutida na ONG é que seguranças particulares de ruas, instalação de portões elétricos, fios de choques sobre muros ("torra gato") e até gastos com tratamento psiquiátrico que venham a ser necessários por conta de traumas decorrentes de crimes como o seqüestro, sejam dedutíveis do IR.

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