Polícia descobre esquema de aliciamento de travestis em SP

A maioria delas vinha do Estado do Pará e estaria presa aos aliciadores por meio de dívidas

Bruno Lupion, do estadão.com.br,

03 de fevereiro de 2011 | 01h56

SÃO PAULO -  A Polícia Civil de São Paulo desmantelou um esquema de tráfico de pessoas para exploração sexual na noite de quarta-feira, 2, no centro da capital, ao encontrar duas pensões com mais de 70 travestis, a maioria da Região Norte do País, das quais seis adolescentes. A descoberta ocorreu por acaso, quando os investigadores buscavam um garoto de 17 anos desaparecido da casa dos pais em Belém, no Pará, em 27 de dezembro do ano passado.

 

Os pais suspeitavam que o filho tinha vindo para São Paulo e acionaram o Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP), que localizou o garoto em uma pensão no Cambuci, na Rua Hermínio Lemos, nº 340. Lá, os policiais souberam de uma segunda pensão que faria parte do esquema, na Rua Cruzeiro do sul, nº 219, no Bom Retiro, e foram ao local. Um livro de contabilidade e porções de maconha foram apreendidos.

 

Todas as travestis foram levadas à Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), no centro, para serem qualificadas. Segundo o delegado divisionário de proteção à pessoa, Joaquim Dias Alves, cerca de 90% delas eram do Estado do Pará e estavam presas aos aliciadores por meio de dívidas. "Eles trazem as pessoas para São Paulo, as enfiam numa casa precária e controlam seu ir e vir", disse.

 

Segundo depoimentos colhidos pelo delegado, a gerente do esquema, conhecida por Telma, retinha as certidões de nascimento das travestis e castigava fisicamente quem desobedecesse as regras da pensão. Numa situação análoga ao trabalho escravo, quem tinha dívidas era impedido de ir embora. Telma e um suposto comparsa no esquema estão foragidos.

 

Uma travesti de 20 anos, que preferiu não se identificar, disse que não se sentia presa no local, pois tinha "casa e comida" e "podia sair e voltar quando quiser". Ela contou que a dona da pensão cobrava um valor mensal pelo quarto coletivo e intermediava implantes de silicone nos seios para quem desejasse. "Paguei uma quantia por mês e, depois de um ano, ela arrumou o implante", disse.

 

Outra travesti, de 24 anos, que também preferiu o anonimato, disse que a pensão no Cambuci era administrada coletivamente pelas moradoras, com divisão das despesas e funções domésticas, sem a influência da aliciadora Telma. "O grande erro foi permitir a entrada da menina [o adolescente procurado pela polícia], ela disse pra gente que era maior de 18", contou. Já na pensão do Bom Retiro, segundo ela, as regras eram mais rígidas e havia histórias de maus-tratos.

 

O coordenador de políticas para a diversidade sexual do governo do Estado, Dimitri Sales, foi ao DHPP e disse que o caso enquadra-se como tráfico de pessoas para exploração sexual, mas destacou que é difícil para as travestis reconhecerem essa situação.

 

"Os aliciadores se aproveitam de uma situação de fragilidade, pois muitas travestis não têm apoio familiar, e oferecem casa, comida e suporte afetivo. Se elas adoecem, dão remédio. Mas, no final das contas, os aliciadores veem as travestis como um produto lucrativo, que precisa ser cuidado", diz. "É um vínculo difícil de ser rompido", afirmou.

 

Segundo Dimitri, o governo estadual oferecerá vagas em abrigos municipais ou apoio para as travestis que desejam retornar à cidade natal. Para as adolescentes sem família, a coordenadoria avalia a inclusão no Programa de Proteção a Crianças e Adolescentes Ameaçados de Morte (PPCAAM).

 

Atualizado às 7h20 para acréscimo de informações.

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