Polícia diz ter esclarecido 60% das mortes de moradores de rua em AL

Conclusão é de que a maioria dos 39 casos foi motivada por questões relacionadas ao tráfico de drogas e brigas ocasionais entre elas

Ricardo Rodrigues, Especial para O Estado

22 Novembro 2010 | 13h23

MACEIÓ - A Polícia Civil de Alagoas apresentou nesta segunda-feira, 22, o primeiro balanço oficial sobre as mortes de moradores de rua em Alagoas. De acordo com as investigações realizadas com o auxílio da Força Nacional de Polícia Judiciária, a Polícia Civil alagoana concluiu que a maioria dos crimes foi motivada por questões relacionadas ao tráfico de drogas e brigas ocasionais entre elas. Ao todo, foram investigados 39 casos, sendo 37 homicídios e duas tentativas, já que as vítimas sobreviveram aos ataques. O relatório será entregue nesta ainda hoje ao governador Teotônio Vilela Filho (PSDB).

 

Apesar de o governador ter cobrado a apuração total dos casos até o dia 22 de novembro, o relatório elaborado pela Policia Civil indica que apenas 60% dos assassinatos estão esclarecidos - com autoria definida -, e sete acusados estão presos. "Dos 14 crimes com autoria ainda não definida, cinco já estão com linhas de investigação bastante adiantadas", garante o relatório. De acordo com o documento, os acusados de vários crimes já esclarecidos foram identificados e alguns tiveram a prisão preventiva decretada, mas seus nomes são mantidos em sigilo para não prejudicar as investigações.

 

Já foram presos: Cássio Cícero Damasceno, o 'Cição', acusado de matar José Roberto Fragoso, o 'Lobisomen'; Rodrigo Alexandre da Silva, 21 anos, o 'Lanchinho', que teria matado o flanelinha Wanderson Bezerra Félix, o 'Timbalada'; José Carlos Neves dos Santos, 26 anos, 'Gambá', acusado de assassinar um jovem conhecido como 'Piuiu' ou 'Fedorento'; José Everaldo da Silva, apontado como matador de Adnelson Araújo da Silva, crime ocorrido no Centro; e José Jorge da Silva, 25 anos, acusado de assassinar a companheira Patrícia Vicente da Silva, em Arapiraca, e arrancado seu coração. Nos presos, 'Gambá' foi solto por ter recebido da Justiça a liberdade provisória.

 

O ex-policial civil Miguel Rocha Neto também está preso acusado de dois assassinatos, um no bairro do Farol e outro no bairro do Poço, em frente à sede do Ministério Público Estadual (MPE). Outros três policiais civis - denunciados pelo MPE - são investigados por participação na morte de um morador de rua executado no Parque Rodolfo Lins, no Farol.

 

O relatório reconhece que alguns casos têm características de grupo de extermínio, mas apresenta apenas um matador: Luiz Carlos Soares da Silva Santos, que é conhecido como 'Orêia' e trabalhava como vigilante autônomo para uma rede de supermercados. Ele é acusado de quatro assassinatos contra moradores de rua, todos no bairro da Levada, principalmente na região do Mercado Público da capital alagoana. O vigilante também já se encontra preso.

 

Segundo a Polícia Civil, os exames de comparação balística revelam que os moradores de rua José Sérgio dos Santos Silva, o 'Cotó', e Wanderson Bezerra Félix, o 'Timbalada' foram mortos com armas do mesmo calibre, mas os tiros não foram deflagrados pela mesma arma. O primeiro caso estaria com linha investigatória adiantada e o segundo com autoria definida.

 

Do total de 24 crimes esclarecidos com autoria, 15 foram investigados pela polícia alagoana e oito pela Força Nacional, sendo que em uma das apurações houve atuação conjunta. Os casos investigados revelaram que 24 das vítimas se enquadram na real condição de morador de rua.

 

Um dos homicídios chamou a atenção pela sua motivação. Rafael Gustavo Rodrigues, de 23 anos, foi morto em julho deste ano, porque havia apostado na vitória da seleção brasileira, numa partida da Copa do Mundo. O Brasil venceu, e o perdedor para não pagar a aposta acabou matando Rafael.

 

Um dos casos relacionado como morte de morador de rua é o de José Leandro da Silva Conceição. De acordo com o relatório, na verdade, a vítima trabalhava na rua, mas morreu afogada, em janeiro deste ano, na Praia da Pajuçara.

 

Segundo o delegado-geral da Polícia Civil de Alagoas, Marcílio Barenco, 83% das pessoas assassinadas eram dependentes químicos, usavam maconha, crack e cola de sapateiro. "Apesar dessa realidade, a Polícia Civil não vai trabalhar criminalizando as vítimas, e sim buscando responsabilizar os infratores. Para a polícia, todos os crimes têm a mesma importância e assim agimos nessas investigações, de forma impessoal, como sempre fizemos", afirmou Barenco.

 

Para o delegado-geral, as autoridades municipais e estaduais de direitos humanos e assistência social precisam trabalhar mais na prevenção, diminuindo dessa forma a necessidade de repressão que é de responsabilidade da Polícia Civil.

 

Barenco fez questão de enaltecer os esforços realizados por delegados, agentes e escrivães da Polícia Civil e da Força Nacional para o sucesso desse trabalho. Ele agradeceu o empenho da diretora Rosana Coutinho e dos peritos do Instituto de Criminalística (IC), pela celeridade no envio da documentação de constatação de crime e laudos de comparação balística; como também dos médicos legistas do Instituto Médico Legal Estácio de Lima (IML), na pessoa do diretor Gerson Odilon, na elaboração dos laudos cadavéricos e de corpo de delito.

 

O delegado-geral gradeceu ainda à presidente do Tribunal de Justiça de Alagoas, desembargadora Elizabeth Carvalho, que colocou à disposição os juízes da 17ª Vara Criminal - Maurício Brêda, Rodolfo Osório, Emmanuel Dória, Geraldo Amorim e Ana Raquel - à disposição da Polícia no sentido de agilizar as investigações, bem como o juiz da 8ª Vara do Tribunal do Júri de Maceió, José Braga Neto.

 

Ele ressaltou também a ajuda do Ministério Público Estadual, nas pessoas dos promotores de Justiça naturais, e em especial do promotor Alfredo Gaspar de Mendonça, coordenador do Grupo Especial de Combate às Organizações Criminosas (Gecoc), e ainda ao Ministério da Justiça, na pessoa do secretário Nacional de Segurança Pública, Ricardo Balestreri.

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