WILTON JUNIOR / ESTADÃO
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Polícia do Rio bate recorde de mortos nos cinco primeiros meses do ano 

Foram 741 óbitos por ação policial, que corresponde à média de 4,87 pessoas por dia

Fábio Grellet, O Estado de S.Paulo

22 de junho de 2020 | 18h32

As polícias Civil e Militar do Estado do Rio de Janeiro mataram 741 pessoas nos cinco primeiros meses de 2020, o que corresponde à média de 4,87 pessoas por dia. O dado, divulgado pelo Instituto de Segurança Pública (ISP, órgão do governo do Estado do Rio) nesta segunda-feira (22), é o recorde de mortes nesse período desde que a contabilização começou a ser feita, em 1998 - ao longo dos últimos 23 anos, portanto. Foram nove mortes a mais do que o recorde anterior, registrado em 2019, quando a polícia matou 732 pessoas nesse mesmo período. Mas em 2020, durante a metade desses cinco meses (a segunda quinzena de março e os meses de abril e maio), vigorou no Estado do Rio o isolamento social por conta da covid-19, o que reduziu o número de pessoas nas ruas e também os principais índices de criminalidade. No mês de abril, o primeiro que transcorreu integralmente sob regime de isolamento social, a polícia matou 177 pessoas. Em maio foram 129. O recorde mensal foi registrado em julho de 2019, com 195 mortos.

Tanto o recorde no período de janeiro a maio como o segundo maior número de mortos nesse período ocorreram durante a gestão do governador Wilson Witzel (PSC), que logo após ser eleito defendeu que os policiais atirassem para matar quem fosse flagrado portando fuzis. Em entrevista ao Estadão, publicada em 1 de novembro de 2018, Witzel afirmou que “o correto é matar o bandido que está de fuzil. A polícia vai fazer o correto: vai mirar na cabecinha e... fogo!”. Na ocasião, questionado se essa diretriz não iria aumentar o índice de letalidade, o governador respondeu que “vai reduzir os índices de bandido de fuzil em circulação”.

No período de janeiro a maio dos dois primeiros anos da gestão Witzel, a polícia matou 1.473 pessoas. Nesses mesmos períodos da gestão de Anthony Garotinho (1999-2000), os agentes de segurança mataram 273 pessoas; na gestão de Rosinha Garotinho (2003-2004), 929 pessoas; na primeira gestão de Sérgio Cabral (2007-2008), 1.238 pessoas; na segunda gestão de Cabral (2011-2012), 507 pessoas; e na gestão de Luiz Fernando Pezão (2015-2016), 632 pessoas. Em relação ao menor índice desde o início da contabilização (273 pessoas, na gestão Anthony Garotinho), na atual gestão o número de mortos pela polícia aumentou 439,5%. Em relação ao maior índice nesse período (1.238 pessoas, na primeira gestão de Cabral), o número na gestão Witzel aumentou 18,9%.

Redução. As estatísticas de criminalidade no Estado do Rio durante o mês de maio, divulgadas pelo ISP, também indicaram um resultado positivo: o segundo menor número de homicídios dolosos (intencionais) desde o início da contabilização - neste caso, em 1991, portanto ao longo de quase 30 anos. Foram 273 casos. Desde 1998, o único mês em que houve menos homicídios foi junho de 2015, quando 272 pessoas foram mortas intencionalmente por pessoas que não estavam a serviço do Estado. O mês que teve mais homicídios dolosos desde o início da série histórica foi janeiro de 1995, com 831.

Resposta. Procurado pela reportagem para comentar o número de mortos, o governo do Estado afirmou que se manifesta sobre o tema por meio de suas secretarias de Polícia Civil e de Polícia Militar.

Em nota enviada à reportagem, a secretaria estadual de Polícia Militar do Rio de Janeiro afirmou que “as ações da corporação no enfrentamento ao crime organizado seguem protocolos técnicos, para preservar vidas de moradores e dos policiais, e as determinações legais estabelecidas por todas as instâncias do Poder Judiciário”.

A nota continua: “As ações têm o objetivo de prender criminosos e apreender armas. Nos cinco primeiros meses deste ano, incluindo, portanto, o período da pandemia, quase 15 mil pessoas envolvidas em atividade criminosa foram conduzidas pela Polícia Militar para unidades da Polícia Judiciária. No mesmo período, foram apreendidas mais de 3.000 armas, entre as quais 150 fuzis”.

Segundo a PM, “o confronto é uma opção dos criminosos, que, de posse de armas de alto poder de destruição, disparam tiros em direção à tropa sem medir consequências. Quando as operações resultam em casos de lesão corporal ou óbito, são instaurados automaticamente dois inquéritos. Um pela Delegacia de Homicídios da Polícia Civil e o outro pela Polícia Militar, através de Inquérito Policial Militar aberto pela unidade da corporação envolvida na ocorrência, ambos acompanhados pelo Ministério Público. A  Corregedoria da Polícia Militar não só acompanha e colabora com os dois inquéritos, como disponibiliza canais de comunicação direta com a sociedade para receber denúncias”.

Também em nota, a Secretaria de Polícia Civil afirmou que "as operações realizadas visam instruir inquéritos instaurados para apuração de crimes, assim como cumprimento de medida judiciais. As ações são baseadas em informações de inteligência e planejamento operacional, que levam em consideração horário a serem realizadas e identificação dos agentes que participam, exceto em situações flagranciais, que exigem rápida resposta para efetuar a prisão".

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